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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Dos assaltos, reinvenções e acontecências de 2010

“Ah, as coisas influentes da vida chegam assim sorrateiras, ladroalmente”.

Faço minhas as palavras de Riobaldo, o jagunço existencial do “Grande Sertão: Veredas”. Olhando para o ano que passou percebo que fui assaltada. Sim, fui tomada de assalto pela paixão pelas imagens retidas – a fotografia.

Há tanto tempo que eu estou pertinho desta arte, mas foi somente agora que qualquer coisa despertou e as imagens começaram a explodir da minha cabeça, da minha barriga, dos meus poros e eu já não sei passar muito tempo longe de uma câmera, já não quero estar longe do mundo mágico das luzes, sombras e perspectivas. Estou grávida de imagens!

Descobri que a fotografia pode ser a reinvenção da realidade e, principalmente, que ela também nos reinventa. O olhar de quem ingressa pelas veredas da fotografia jamais voltará a ser o mesmo.

Mas houve outro assalto: a criação deste blog. Esse foi o ano em que passei a entender melhor esse microcosmo que é a blogosfera. Com a ajuda de amigos e uma boa dose de paciência e perseverança, eu construí a minha página na web – o Compartimento Secreto para Coisas Pequenas, mas que também comporta coisas grandes. (Agradeço aos que estão sempre presentes.)

Pensando bem, as lembranças de 365 dias vêm sempre em retalhos – ora grandes ora pequenos -, e fazendo um justo balanço, eles são, em sua maioria, perfeitos para confeccionar uma bela colcha de boas recordações. 

E que venha 2011 com mais retalhos de poesia, epifania, paixão e desejo!

***

Promessas (realizáveis) de Ano Novo:
-Continuar meus estudos e práticas de fotografia.
-Continuar blogando.
-Revisitar, cuidadosamente, o livro “Grande Sertão: Veredas.

Desejo de Ano Novo:
Que 2011 seja um ano de “acontecências” (de grandes e boas acontecências)

Imagem: Shiori Matsumoto

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Magnólia


Para a Magnólia das nebulosas
Magnólia caleidoscópica
Mag Sol Mag Lua Mag Mag Mar
Eu disse Magnólia!
Feliz Aniversário, minha irmã querida!

Magnólia - Jorge Ben Jor 
A Tábua de Esmeralda - 1974

Imagem: Web 

domingo, 26 de dezembro de 2010

Minha liberdade

"Minha liberdade pequena e enquadrada me une à liberdade do mundo - mas o que é uma janela senão o ar emoldurado por esquadrias?"


Clarice Lispector 
In: Água Viva

Foto: Miguel Pessoa Vidal - Cavalos no Gelo - 2010

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Morte e Vida Severina (auto de Natal pernambucano)


APROXIMA-SE DO RETIRANTE O MORADOR DE UM DOS MOCAMBOS QUE EXISTEM ENTRE O CAIS E A ÁGUA DO RIO

— Seu José, mestre carpina,

que habita este lamaçal,
sabes me dizer se o rio
a esta altura dá vau?
sabe me dizer se é funda
esta água grossa e carnal?
— Severino, retirante,
jamais o cruzei a nado;
quando a maré está cheia
vejo passar muitos barcos,
barcaças, alvarengas,
muitas de grande calado.
— Seu José, mestre carpina,
para cobrir corpo de homem
não é preciso muita água:
basta que chega ao abdome,
basta que tenha fundura
igual à de sua fome.
— Severino, retirante,
pois não sei o que lhe conte;
sempre que cruzo este rio
costumo tomar a ponte;
quanto ao vazio do estômago,
se cruza quando se come.
— Seu José, mestre carpina,
e quando ponte não há?
quando os vazios da fome
não se tem com que cruzar?
quando esses rios sem água
são grandes braços de mar?
— Severino, retirante,
o meu amigo é bem moço;
sei que a miséria é mar largo,
não é como qualquer poço:
mas sei que para cruzá-la
vale bem qualquer esforço.
[...]
— Seu José, mestre carpina,
e que interesse, me diga,
há nessa vida a retalho
que é cada dia adquirida?
espera poder um dia
comprá-la em grandes partidas?
— Severino, retirante,
não sei bem o que lhe diga:
não é que espere comprar
em grosso tais partidas,
mas o que compro a retalho
é, de qualquer forma, vida.
— Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?

UMA MULHER, DA PORTA DE ONDE SAIU O HOMEM, ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ

— Compadre José, compadre,

que na relva estais deitado:
conversais e não sabeis
que vosso filho é chegado?
Estais aí conversando
em vossa prosa entretida:
não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dento da vida
ao dar o primeiro grito;
e estais aí conversando;
pois sabei que ele é nascido.

O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUE ESTEVE DE FORA, SEM TOMAR PARTE EM NADA

— Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.*

João Cabral de Melo Neto
In: Morte e Vida Severina e Outros Poemas para Vozes


*Grifo meu.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Por um Natal sem aves industrializadas – Salmão ao molho de maracujá


Quem, na Ceia de Natal, opta por não comer peru, chester e outras comidas a sabor de plástico, não precisa ficar a ver navios e comer somente a salada. Eu abri meu caderninho de receitas e encontrei uma sugestão para agora ou qualquer época do ano: salmão ao molho de maracujá. 

A receita é simples, acessível, aromática e tem sabor exótico. Uma saladinha de folhas, arroz e um bom vinho complementam o paladar. (E com vinho tudo fica mais gostoso, tudo!)

. 2 filés (altos) de salmão . 2 colheres (sopa) de azeite . Sal e pimenta-do-reino branca a gosto . 2 ramos de alecrim.
Para o molho – Polpa de 1 maracujá . Sal e pimenta-do-reino branca a gosto . 1 xícara (chá) de água . 1 colher (chá) de amido de milho.

Tempere o salmão com o azeite, sal e pimenta. Envolva os filés em dois papelotes de papel-alumínio, coloque um ramo de alecrim sobre cada filé e feche o papel como um envelope. Arrume em uma fôrma e leve ao forno médio, pré aquecido, por 20 minutos.
Para o molho, separe algumas sementes da polpa do maracujá para decorar e bata o restante das sementes com a polpa, sal, pimenta e a água no liquidificador. Coe e transfira para uma panela. Junte o amido de milho e leve ao fogo médio, mexendo até engrossar, depois adicione as sementes reservadas. Retire o peixe do forno, abra o papel, retire o alecrim e regue com o molho. (Serve duas pessoas)

Dê o seu toque final, sinta o aroma e se delicie.

E Feliz Natal, sem peru e afins! 

Imagem: Web

domingo, 19 de dezembro de 2010

A Perfeição


"O que me tranquiliza é que tudo o que existe, existe com uma exatidão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. Apesar da verdade ser exata e clara em si própria, quando chega até nós se torna vaga pois é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição."

Clarice Lispector
In: Aprendendo a Viver

Imagem: Web

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Minha vida de acordo com Chico Buarque

Esta é uma brincadeira que está rolando no Facebook, mas achei melhor fazê-la aqui. O desafio é preencher um questionário usando títulos ou trechos de canções de um cantor ou banda preferido. Eu pedi licença poética a Chico Buarque e falei um pouquinho da minha vida. Deu um pouquinho de trabalho, mas foi divertido fazer. 

Você é homem ou mulher?
“Eu sou tão menina... Eu sou Colombina”

Descreva-me:
“...nos seus olhos tristes, guarda tanto amor, o amor que já não existe”

Como você se sente?
“Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”

Descreve o local onde você vive atualmente:
“São casas simples com cadeiras na calçada e na fachada escrito em cima que é um lar”

Se você pudesse ir a qualquer lugar, onde você iria?
“Tanto mar, tanto mar... Sei, também quanto é preciso navegar, navegar...”

Sua forma de transporte preferido:
“Esperando, esperando, esperando o sol, esperando o trem”

Seu melhor amigo?
“Quem te viu quem te vê. Quem não a conhece não pode mais ver pra crer”

Você e seus amigos. Como são?
“É fora, é fora, é fora da lei, é fora do ar”

Qual é o clima?
“Parece Dezembro de um ano dourado”

Hora do dia favorita:
“Já é madrugada. Acorda... Acorda... acorda”

Se sua vida fosse um programa de TV, como seria chamado?
“A Banda”

O que é a vida para você?
“Decepar a cana, recolher a garapa da cana, roubar da cana a doçura do mel. Se lambuzar de mel”

Seu relacionamento:
“Geme de preguiça e de torpor... Mata-me de rir, fala-me de amor”

Qual é o melhor conselho que você tem a dar?
“Vai, meu irmão. Pega esse avião, você tem razão de correr assim... mas beija, antes que um aventureiro lance mão”

Pensamento do dia:
“Deixa a tristeza pra lá, vem comer, me jantar. Saparatel, caruru, tucupi, tacacá. Vê se me usa, me abusa, lambuza. Que a tua cafuza não pode esperar”

Seu medo:
“Se tu falas muitas palavras sutis, se gostas de senhas sussurros ardis. A lei tem ouvidos pra te delatar nas pedras do teu próprio lar”

Meu lema:
“Não chore ainda não, que eu tenho um violão e nós vamos cantar”

Salve, Chico!!!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Ao velho Lua


Ontem foi o aniversário do grande Rei do Baião – Luiz Gonzaga – e também dia em que se comemora o Dia do Forró.

Por falta de tempo não pude deixar minha singela homenagem e demonstrar todo o meu respeito a esse que - com sua sanfona - foi um dos maiores arautos da cultura nordestina. É a ele que devo grande parte do orgulho que sinto por ser desta terra de beleza agreste, cores fortes e raízes profundas.

Em tempo, deixo a canção “Tropeiros da Borborema”, composta por Raimundo Asfora e Rosil Cavalcante, belamente musicada pelo velho Lua e que agracia um pedaço da história da minha querida cidade – Campina Grande.

Toca, Gonzagão!

"Tropeiros da Boborema"

domingo, 12 de dezembro de 2010

Dois vocativos


A maravilha dá de três cores:
branca, lilás e amarela,
seu outro nome é bonina.
Eu sou de três jeitos:
alegre, triste e mofina,
meu outro nome eu não sei.
Ó mistério profundo!
Ó amor!

Adélia Prado
In: O Coração Disparado - 1978

Imagem: Web

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Meu Natal Kitsch e minha gatinha Grinch

Quando chega essa época sempre surgem aqueles que dizem não gostar do Natal e tudo que vem com ele. Seja por questão religiosa, estética ou por puro prazer de ser do contra. Às vezes gosto de ser do contra, mas nesse caso eu vou com a maioria.

À parte o consumismo louco comum desta época, eu adoro enfeitar a casa com todos os balangandãs kitsch criados para as festas de fim de ano. E daí se é kitsch? As alegorias do Carnaval são kitsch, as bandeirolas de São João também são. E eu gosto dessas festas é mesmo por isso. Óbvio que seria no mínimo surreal se em pleno Nordeste brasileiro eu montasse um pinheiro com neve artificial, mas o bom senso também serve para essas coisas.

Guirlandas, luzinhas, árvores, presépios... Tenho tudo e monto eu mesma um por um. É uma alegria só - volto a ser criança. Mas como nem tudo são rosas, ou eu diria, nem tudo são enfeites natalinos, este ano tenho em casa uma linda e louca gatinha chamada Ritinha.

A mocinha acompanhou toda a arrumação da árvore de Natal com aquela calma zen que todo gato tem. Até pensei: ela vai ficar quietinha. Mas qual não foi minha surpresa, quando no dia seguinte descobri a árvore em frangalhos. Bolinhas soltas pelo chão, lacinhos desfeitos, estrelinhas nos ares.

Não pude sentir raiva, afinal, mãe de gato sabe que esses meninos são assim mesmo. Talvez ela seja um grinch e não acredita no espírito de Natal. Ou é apenas uma menina brincalhona que sabe se divertir com coisas simples.

A solução foi desmontar o playground de Ritinha e esse será um Natal sem árvore. 





Imagens:Web

domingo, 5 de dezembro de 2010

Ciranda da Bailarina

Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Berruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem

Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida
Ela não tem

Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina
Ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem

Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem

O padre também
Pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina
Reparando bem, todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem

Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família
Quem não tem

Procurando bem
Todo mundo tem...

Ciranda da Bailarina - Adriana Partimpim
Composição - Chico Buarque e Edu Lobo
Imagem: Web

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A Evolução Silenciosa

Sempre há um modo de conservarmos a nossa casa comum – o planeta Terra. E é com sua arte que o escultor inglês Jason deCaires Taylor vem realizando um trabalho que, em minha opinião, é no mínimo inusitado, porém extremamente estético e útil ao meio ambiente.


A instalação intitulada de “A Evolução Silenciosa” é um conjunto gigantesco de estátuas em cimento, inspiradas em pessoas comuns e do seu próprio convívio. Elas estão sendo colocadas no fundo do mar, por enquanto somente em Cancún, e a ideia é que elas possam servir de abrigo para os corais, além de outras vidas marinhas, que estão ameaçadas por conta dos danos ambientais que os mares vêm sofrendo nos últimos tempos. 


O efeito de cores e texturas que os corais darão a este museu submarino está fora do controle do escultor mas, com certeza, será um espetáculo bonito de se ver.


Para ver outras imagens e saber mais sobre o projeto clique aqui.

E para ler entrevista com deCaires clique aqui.  

domingo, 28 de novembro de 2010

O Silêncio


Há um grande silêncio que está sempre à escuta...
E a gente se põe a dizer inquietantemente
qualquer coisa, qualquer coisa, seja o que for,
desde a corriqueira dúvida sobre se chove ou não chove hoje
até tua dúvida metafísica, Hamleto!
E, por todo o sempre, enquanto a gente fala, fala, fala
o silêncio escuta... 
e cala.

Mario Quintana
In: Esconderijos do tempo
Imagem: Web

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Discos Imperdíveis

"O homem que não tem a música dentro de si e que não se emociona com um concerto de doces acordes é capaz de traições, de conjuras e de rapinas."
William Shakespeare

Será que existe alguém que não gosta de música? Eu penso que é unânime, todos têm uma música ou estilo de música favorita. Nem quero falar de gostos (ou desgostos) musicais. Certo, às vezes é até discutível, mas respeitemos o gosto alheio.

O bom da música é que ela congrega as pessoas, alivia tensões, apaixona, inspira, consola e até faz chorar. Há quem diga que a música tem poder de cura - eu acredito!

Nunca sei dizer qual a minha música favorita, muito menos cantor, grupo ou compositor que mais admiro. Aprecio tantos e tantos estilos. Do rock ao samba, do jazz a bossa nova, da clássica ao pop. Para mim, o que vale mesmo é que a música esteja sempre presente. Com volume baixo a moderado ou alto quando for preciso.

E para comemorar o Dia da Música não encontrei outro modo de fazê-lo, senão compartilhando Discos Imperdíveis (clique no link), para quem gosta de ouvir música on-line enquanto trabalha, conversa, namora, lê, estuda ou apenas escuta. Há música para todos os gostos, mas todas de muito bom-gosto. Apreciem!

E o que estou ouvindo agora?! 
O silêncio da madrugada, apenas.

"Depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música." 
Aldous Huxley 


Imagem: Web

domingo, 21 de novembro de 2010

A Fábrica do Poeta

Fabrico uma esperança
como quem apaga
algo sujo num muro,
e ali, rápido, escreve:
Futuro.
 
Fabrico uma pureza
tão menina,
tão cristal e tão fonte
que, de repente,
É meu todo o horizonte.
 
Fabrico uma alegria
que é de ver as coisas
como se só agora
é que nascesse,
A aurora.
 
Fabrico uma certeza
exata
para cada instante.
A vida não está atrás,
Mas adiante.
 
Fabrico com o que tiro
de mim mesmo e do mundo
meu dia.
E ao que, em síntese, sou
Junto o que queria.
 
Fabrico uma hora densa,
como quem descobre.
Ah, quem diria
Que essa hora imensa
Já é poesia?
 
Emílio Moura
In: Poesias

Imagem: Web

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A excêntrica família de Antonia


Há filmes que ao assistirmos, pensamos que não somos meros espectadores e sim personagens daquela história. É assim com o filme de Marleen Gorris, “A excêntrica família de Antonia” – 1995.

Vi o filme há 14 anos e agora fiz uma revisita a essa estranha e encantadora família. Foi delicioso reencontrar os “esquisitos” personagens daquele pacato vilarejo. A começar por Antonia, uma mulher de espírito-livre, matriarca de uma linhagem de mulheres tão fortes e determinadas quanto ela própria: a filha desenhista Danielle, a neta superdotada Therese e Sarah, a bisneta sapeca e futura escritora.

A Louca Madona que uiva em noites de lua cheia e o pudico protestante que a ama secretamente. Ele não saberia viver sem seus uivos cheios de lamentos.

O padre que larga a batina e casa-se com Letta que adora estar grávida e ao falecer, dando a luz ao 12º filho, lamentou não ter tido mais 12.

O amigo mais próximo de Antonia, o melancólico e pessimista Dedo Torto, que leva a vida entre livros e leituras de Nietzsche e Schopenhauer.

São esses e tantos outros, cada um com suas manias, defeitos e virtudes, mas sempre acolhidos por Antonia. Por isso, facilmente, nos sentimos fazer parte dessa excêntrica família. Trabalhamos no campo e sentamos à mesa juntos aos demais. Afinal, qual a família que não tem de suas esquisitices?


Gostei de rever esse filme e perceber novas nuances e sutilezas. O tom ora alegre ora triste, as recordações, os dramas, os amores felizes e infelizes, o passar das estações - o tempo sempre implacável - mas Antonia sempre forte. Antonia que semeia o amor com a mesma verdade que semeia o chão. E como ela bem dizia: “O tempo não cicatriza feridas. Ele apenas alivia a dor e embaça a memória”. E eu digo, embaça a memória, mas não embaça as paixões.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Minha Arte Naïf

Imprimir pinceladas ou, nesse caso, rabiscos ingênuos só pode melhorar nosso dia-a-dia. Por isso rabisco coisinhas que não é arte, mas é naïf.


Arthur Cravan Was A Flor Fina - Pascal Comelade
Traffic d'Abstraction - 1997

domingo, 14 de novembro de 2010

Saudade


"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida."
Clarice Lispector
In: Aprendendo a viver 
Imagem: Web

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Chihiro e a metáfora dos porcos


Noto como os principais meios de comunicação, todos os dias incutem em nossas mentes que não podemos sentir tristeza ou dor. É preciso ser feliz sempre, estar sempre satisfeito, mesmo que essa satisfação seja à custa do cartão de crédito, pois comprar é a ordem da vez. Precisamos ter em casa – mesmo que não haja condições financeiras – toda a parafernália tecnológica tão útil quanto inútil e toda a moda que é lançada na última semana. Em filmes norte-americanos (principalmente os filmes para adolescentes) ouço com muita recorrência o termo loser, que se refere aquela pessoa que não atingiu a meta. Este é o “perdedor”, que não realizou, à risca, o ideal pré-estabelecido por uma sociedade que consome cegamente. O loser sempre será mal-visto entre os demais, pois ele não faz parte desse grupo.

No filme de animação japonesa “A Viagem de Chihiro” – (2001) há uma passagem que ilustra muito bem essa ânsia de consumo imediato. É quando os pais da menina Chihiro encontram pelo caminho um restaurante com refeições apetitosas e ambos – enfeitiçados pelo aroma e aspecto da comida – mesmo sem fome sentam-se ao balcão e comem tudo que surge à frente. A princípio, com muita euforia, sentem o sabor, mas em seguida apenas engolem e comem com tanta voracidade que se transformam em porcos.

 Essa, dentre várias no filme, é uma metáfora muito forte para o que acontece conosco diante de toda a atraente ideia de que consumir é a solução instantânea para nossos problemas. A nós não é permitido um pouco de tristeza, desencanto ou momentos de introspecção, pois sempre surge alguém ou a TV para oferecer a pílula da felicidade (“O meu cartão de crédito é uma navalha”).

Até sinto, com muita pena, que tenho atitudes parecidas com a dos pais de Chihiro, porém, antes de TER felicidade eu quero é SER feliz... e sempre que eu quiser ou precisar quero ser triste, pelo tempo necessário, porque não é feio sentir tristeza e é bom ser inteiro na felicidade e também na tristeza.

“Coisas são só coisas, servem só pra tropeçar, têm seu brilho no começo, mas se viro pelo avesso são fardo pra carregar.”
Chico César 

E quanto ao filme, eu recomendo com veemência: 


terça-feira, 9 de novembro de 2010

Pensar em você

Porque caiu chuva miúda que molhou a terra.
Porque o sol sorri e os pássaros cantam.
Porque é Só Pensar em Você!

Pensar em você - Chico César

domingo, 7 de novembro de 2010

Os meus, os seus, os nossos gatos

 
Gateiro é gateiro, e só quem é gateiro entende outro gateiro. Impressionante a cumplicidade que esses serezinhos peludos e manhosos geram entre as pessoas. E, quando a gente menos espera, lá vem um conhecido que também é apaixonado por esses bichanos assumir a cumplicidade. E olha, nem muita coisa precisa ser dita: logo sabemos que aquela pessoa é do bem. Os amantes dos gatos não têm sede própria, nem encontros programados. Apenas compartilham de alguns segredos que só quem é gateiro consegue identificar. Mas também não são exibidos. Seus gatos são de casa e, por ser assim, é difícil expor as habilidades felinas mundo afora. Então, como um código universal, acabamos entendendo em simples conversas intimistas os significados dos milhares de tons de ronronados e miados que nossos alvos de adoração emitem. 

Mas eu também acredito piamente que, ao contrário da relação com os cães, em que o ser humano é o superior, quem está no topo da pirâmide são os gatos - são eles que dominam de longe os seus donos e acabam fazendo com que se cruzem. Eles, sim, sabem dos códigos e dos mistérios da vida e acabam escolhendo os membros ou os privilegiados que podem desfrutar de alguns poucos de seus segredos e, de uma forma singular, tramam as teias e conduzem um gateiro à via de outro gateiro.

Texto gentilmente compartilhado por Luiz Neves de Castro do blog Egrégora: Carrancas Literárias. Obrigada, Luiz!

Fonte: Revista ALMANAQUE GATOS & RAÇAS 2010, da ON LINE EDITORA.

Imagem: Web

terça-feira, 2 de novembro de 2010

As flores de O'Keeffe

Conheci uma pintora de talento e sensibilidade: Georgia O’Keeffe. Tomei conhecimento  de sua obra através do filme “Vida e Arte de Georgia O’Keeffe” – 2009, realizado por Bob Balaban para a TV norte-americana. Não, o filme não é bom, ao menos não é dos meus preferidos, mas fui feliz por saber dessa artista  forte, talentosa e sensível. 

O’Keeffe passeou da arte figurativa à abstrata e imprimiu em suas telas os mais variados motivos: cidades, paisagens e, principalmente, flores. E foram as flores, com cores ora suaves ora berrantes, demonstrando sensualidade e feminilidade à flor da pele, que me deixaram encantada. Mas não cometerei o pecado de ficar tagarelando sobre o que não precisar ser falado e, sim, visto e apreciado.

Aqui fica algumas das flores de O’Keeffe:



  




















Para ver mais flores e outros quadros de O'Keeffe clique aqui

domingo, 31 de outubro de 2010

O anjo torto II - Infância

Hoje, que também é dia do Saci (viva o Saci Pererê), é o dia do meu poeta preferido. O mineirinho de fala mansa e palavras arrebatadoras: Carlos Drummond de Andrade. Por isso, a "Escola Dominical" dessa semana é especialmente dedicada a ele.



Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras.
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu...Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro...que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Carlos Drummond de Andrade
In: Alguma Poesia - 1930


Reunião - O Brasil dizendo Drummond - Edson Celulari

Imagem: Drummond aos 2 anos (salvo erro)

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O anjo torto

“Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.”

A 31 de outubro de 1902 o anjo torto anuncia o nascimento do menino franzino que faria da linguagem o seu reino. Carlos Drummond de Andrade, homem tímido e reservado foi poeta de engenho e arte, contista de verve e cronista do seu próprio tempo e do tempo futuro.

Com as palavras mais simples - mas nunca ingênuas - Drummond arquitetou sua obra. Foi ele quem pôs a pedra no meio do caminho. Difícil transpô-la, porém inesquecível, pois essa é a pedra fundamental para ingressar no mundo do poeta gauche.

Sobre o fazer poético ele dizia:

“Entendo que a poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser à mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos”.

Drummond foi poeta engajado e num "catar feijão" - à moda de João Cabral de Mello Neto - armou-se com palavras certeiras, mas vestiu-se com lirismo. Carlito também foi vate do Amor, da Esperança e das Reminiscências.
(Continua...)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Sete-Sóis e Sete-Luas

A Literatura tem dessas facetas, lemos um livro e, irremediavelmente, nos apaixonamos por seus personagens.

Acabo de ler “Memorial do Convento”, romance histórico de José Saramago e fiquei enamorada por Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas.

Baltasar Mateus, de alcunha Sete-Sóis, é o homem de modos simples que regressou da guerra, onde deixou sua mão esquerda. E por ser maneta, tornou-se inábil para o trabalho, ficando, assim, largado à própria sorte. Blimunda de Jesus, Sete-Luas porque vê dentro das pessoas. É a mulher obstinada que abriga dentro de si a lealdade e fidelidade pelo homem que encontrou no momento e da forma mais improvável: num auto-de-fé onde sua mãe estava sendo julgada por bruxaria pela Inquisição.

O amor entre esse “casal ilegítimo por sua própria vontade”, deu-se já com a primeira troca de olhares.

"Que nome é o seu, e o homem disse, naturalmente, assim reconhecendo o direito de esta mulher lhe fazer perguntas, Baltasar Mateus, também me chamam Sete-Sóis."

“Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires, Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar, Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste, Não sabes de que estás a falar, não te olhei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo.”

Sei que esse romance genial é muito mais do que essa simples história de amor e cumplicidade. Porém, buscar a leveza das coisas também é legítimo e eu deliciei-me com esse casal e a força que os uniu até o fim. Se é que teve fim!

Recomendo (muitíssimo):