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terça-feira, 1 de junho de 2010

Comer Clarice


Ler Clarice Lispector sempre traz ao leitor a possibilidade de viver uma grande aventura; a aventura de navegar no interior de si mesmo. Saborear Clarice é ter contato com o indizível e o incomunicável. Degustar Clarice sempre nos faz indagar: sou eu quem estou lendo o livro ou o livro quem está lendo a mim? Clarice nos traduz, Clarice nos confunde, Clarice nos devora, Clarice é desconcertante. É que ela não tem a pretensão de agradar, ela simplesmente diz.

"... E não escrevo para te agradar. Principalmente a mim mesma. Tenho que seguir a linha pura e manter não contaminado o meu it" (Água Viva, p.84)

Tudo que se possa dizer acerca da obra de Clarice pode parecer lugar-comum, embora sua obra esteja muito distante de sê-lo. Portanto, para ler seu texto é necessário entrega, pois sua narrativa a todo momento parece desnudar-se sem pudores, para que o leitor tenha a chance de comê-la, sem reservas.

No romance "A Paixão segundo G.H.", ela inicia com uma advertência "A possíveis leitores": "Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente - atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G.H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria"

O leitor empreenderá a penosa viagem e lidará com suas profundezas, suas epifanias e beatitudes. Perplexo fechará o livro e já não será o mesmo, porém a cada releitura entenderá que a viagem sempre será vivenciada de uma nova maneira. Este é o verdadeiro gozo de comer Clarice.

Recomendo:


3 comentários:

  1. Clarice é implacável: Somos lidos na sua escrita, ela tira-nos o véu. Põe-nos a nu diante de nós próprios.

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  2. Ótimo texto!Pena que meu "momento Clarice" ainda não chegou. Mas me deixou mais curiosa...

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  3. amiga você traduz muito bem a escrita de clarice ao perceber essa "aventura de navegar no interior de si mesmo". Diante do si, quantas possibilidades...

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