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domingo, 8 de agosto de 2010

Omelete de Amoras


Esta é uma parábola sobre os pequenos prazeres da vida que não podem ser objeto de consumo.

Era uma vez um rei que tinha todos os poderes e tesouros da Terra, mas apesar disso não se sentia feliz e a cada ano ficava mais melancólico.
Um dia ele chamou o seu cozinheiro preferido e disse: "Você tem cozinhado muito bem para mim e tem trazido para a minha mesa as melhores iguarias, de modo que eu lhe sou agradecido. Agora, porém, quero que você me dê uma última prova de sua arte. Você deve me preparar uma omelete de amoras iguais àquelas que eu comi há cinqüenta anos, na infância."
Naquele tempo, meu pai tinha perdido a guerra contra o reino vizinho e nós precisamos fugir: viajamos dia e noite através da floresta, onde afinal acabamos nos perdendo. Estávamos famintos e cansadíssimos, quando chegamos a uma cabana onde morava uma velhinha que nos acolheu generosamente. Ela preparou para nós uma omelete de amoras, quando a comi, fiquei maravilhado: a omelete era deliciosa e me trouxe novas esperanças ao coração.
Na época eu era criança, não dei importância à coisa. Mais tarde, já no trono, vasculhei todo o reino, porém não foi possível localizá-la. Agora quero que você me atenda esse desejo: faça uma omelete de amoras igual à dela. Se você conseguir, eu lhe darei ouro e o designarei meu herdeiro, meu sucessor no trono. Se você não conseguir, entretanto, mandarei matá-lo".
Então, o cozinheiro falou: “Senhor, pode chamar imediatamente o carrasco”.
É claro que eu conheço todo o segredo da preparação de uma omelete de amoras, sei empregar todos os temperos. Conheço as palavras mágicas que devem ser pronunciadas enquanto os ovos são batidos e a melhor técnica para batê-los. Mas não me impedirá de ser executado, porque a minha omelete jamais será igual à da velhinha. “Ela não terá o sabor picante do perigo, a emoção da fuga, não será comida com o sentido alerta do perseguido, não terá a doçura inesperada da hospitalidade calorosa e do ansiado repouso, enfim conseguido. Não terá o sabor do presente estranho e do futuro incerto". Assim falou o cozinheiro.
O Rei ficou calado, durante algum tempo.
Não muito mais tarde, consta que lhe deu muitos presentes, tornou-o um homem rico e despediu-o do serviço real.

Walter Benjamin
In: "Rua de Mão Única". Obras Escolhidas II. 5.ed. São Paulo: Brasiliense - 1995 p.119-120

Imagem: Web

4 comentários:

  1. Isso me fez lembrar aquela história de 'viva sempre o presente'. Engraçado que por mais que vc faça a mesma coisa com frequencia, ela nunca será sentida do mesmo jeito. Isso dependerá do que vc está sentindo/ vivendo no momento. Portanto, cada momento é único. Ele nunca se repitirá. Nunca! A vida ficaria bem mais interessante se conseguissimos pensar assim sempre. O problema é que vivemos o presente, preocupados com o futuro ou lamentando o passado. Ô bicho complicado que é o ser-humano!

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  2. Olá Margot!
    Muito interessante essa fábula que chama a nossa atenção para os momentos, os instantes que são únicos. Nada se repete. Verdade. Você já experimentou repetir uma taça de sorvete? É igualzinho, mas não tem o mesmo sabor. Assim é a vida. Viva intensamente o presente. Ele é único. Bjsssssss

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  3. Oi Margot, vim retribuir sua visita e fiquei arrepiada com essa estorinha...pq sabor da infância nunca mais se repete...lindo conto. bjs.

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