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terça-feira, 5 de outubro de 2010

Traduzir-se

 Com licença poética...
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

Ferreira Gullar
In: Na Vertigem do Dia (1975-1980)

Traduzir-se - Chico Buarque e Fagner - 1998

2 comentários:

  1. Me agrada a certeza de não poder me definir em palavras, de não ser limitada.

    * Lindo post, gostei muito da escolha, Margot!

    Beijo, beijo.

    ℓυηα

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