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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Chihiro e a metáfora dos porcos


Noto como os principais meios de comunicação, todos os dias incutem em nossas mentes que não podemos sentir tristeza ou dor. É preciso ser feliz sempre, estar sempre satisfeito, mesmo que essa satisfação seja à custa do cartão de crédito, pois comprar é a ordem da vez. Precisamos ter em casa – mesmo que não haja condições financeiras – toda a parafernália tecnológica tão útil quanto inútil e toda a moda que é lançada na última semana. Em filmes norte-americanos (principalmente os filmes para adolescentes) ouço com muita recorrência o termo loser, que se refere aquela pessoa que não atingiu a meta. Este é o “perdedor”, que não realizou, à risca, o ideal pré-estabelecido por uma sociedade que consome cegamente. O loser sempre será mal-visto entre os demais, pois ele não faz parte desse grupo.

No filme de animação japonesa “A Viagem de Chihiro” – (2001) há uma passagem que ilustra muito bem essa ânsia de consumo imediato. É quando os pais da menina Chihiro encontram pelo caminho um restaurante com refeições apetitosas e ambos – enfeitiçados pelo aroma e aspecto da comida – mesmo sem fome sentam-se ao balcão e comem tudo que surge à frente. A princípio, com muita euforia, sentem o sabor, mas em seguida apenas engolem e comem com tanta voracidade que se transformam em porcos.

 Essa, dentre várias no filme, é uma metáfora muito forte para o que acontece conosco diante de toda a atraente ideia de que consumir é a solução instantânea para nossos problemas. A nós não é permitido um pouco de tristeza, desencanto ou momentos de introspecção, pois sempre surge alguém ou a TV para oferecer a pílula da felicidade (“O meu cartão de crédito é uma navalha”).

Até sinto, com muita pena, que tenho atitudes parecidas com a dos pais de Chihiro, porém, antes de TER felicidade eu quero é SER feliz... e sempre que eu quiser ou precisar quero ser triste, pelo tempo necessário, porque não é feio sentir tristeza e é bom ser inteiro na felicidade e também na tristeza.

“Coisas são só coisas, servem só pra tropeçar, têm seu brilho no começo, mas se viro pelo avesso são fardo pra carregar.”
Chico César 

E quanto ao filme, eu recomendo com veemência: 


8 comentários:

  1. Putz que resenha bem feita, Margô. Bendita hora que vc resolveu criar esse blog, viu. Vou rever Chihiro (rsrsrs),pq com certeza, depois do teu texto, terei outros olhos para assisti-lo.
    Parabéns pelo texto!

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  2. Margo eu vi esse filme até tenho aki em casa.Parabéns pelo blog.
    bjuss

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  3. Arrasoooou!
    Tirou as palavras de dentra da minha cabeça...
    É por isso que mergulho cada vez mais na filosofia oriental, é um bom suporte pra afastar essas ideias materialistas!

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  4. É a tal felicidade de etiqueta...lamentável. =\

    Beijocas!

    ℓυηα

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  5. Obrigadíssima pela indicação.
    Vou procurar esse filme por aqui.

    Acho que antes acontecia mais isso comigo e devorar tudo, mesmo sem "fome". Hoje, com mais experiencia, sou mais cautelosa. Me conheço melhor e sei pensar antes de agir (às vezes não! rs).

    Muito bom seu post!
    Um beijo

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  6. Quero muuito ver esse filme!!

    Pq tb acho errada essa valorização pelo ter.

    bj

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  7. É a tal pílula da felicidade. Você compra em cápsulas e é feliz por algumas horas.


    adorei o texto.

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  8. Adorei sua interpretação da metáfora dos porcos! E para completar o adendo de que a tristeza é também uma parte de nós, embora seja tratada como uma aberração na sociedade moderna. Meus parabéns!

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