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segunda-feira, 28 de junho de 2010

Cinema com tempero


Em "A linguagem secreta do cinema", Jean-Claude Carrière diz que o cinema é uma força que suaviza a realidade. Eu tomo a liberdade de complementar sua assertiva, dizendo que o cinema, além de suavizar a realidade, também tem o poder de oferecer a seu expectador toda sorte de sabores e aromas.

Muitos temas já foram abordados pela sétima arte: amor, guerra, política, música... e a culinária. Sim, a culinária é sempre um tema que revisita as telas grandes. É gostoso ver filmes que tratam a comida e afins como pano de fundo de histórias de amor, dramas, comédias e até animações. Vendo esses filmes somos capazes de sentir os aromas e sabores daqueles temperos, e se a imaginação for bem fértil até podemos nos imaginar verdadeiros gourmets.

São filmes para todos os gostos, do mais açucarado ao mais picante. E é por isso que selecionei, somente, uma pequena lista que pode aguçar a nossa vontade de sentir novos sabores e até mesmo de nos aventurarmos a fazer algum prato especial. Pois, se o cinema suaviza a realidade, ele também tem força para temperar nosso dia-a-dia!

Tomates verdes fritos (1991)
Como água para chocolate (1992)
Chocolate (2000)
Sabor da Paixão (2000)
Sopa e Tortilha (2001)
Simplesmente Martha (2001)
O Tempero da Vida (2003)
Sideways - Entre umas e outras (2004)
A Fantástica Fábrica de Chocolate (2005)
Sem reservas (2007)
Ratatouille (2007)
Estômago (2008)
Julie e Julia (2009)


E bom apetite!!!

                                           [Cena de Julie e Julia]


Referência: CARRIÈRE, Jean-Claude. A Linguagem Secreta do Cinema. Tradução: Fernando Albagli e Benjamin Albagli. Ed. Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 2006.

domingo, 27 de junho de 2010

Pudesse eu


Pudesse eu não ter laços nem limites
Oh vida de mil faces transbordantes
P'ra poder responder aos Teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes

Sophia de Mello Breyner
In: Poesia -1944 


Foto: Nilvanda Dantas

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Um abraço pra ti, grande rei do baião!


Hoje é véspera de São João, talvez uma das datas que mais gosto no decorrer do ano. Aliás, esse é o período do ano em que me sinto completamente conectada às coisas da minha terra - às minhas raízes - que tanto primo.

Então, hoje é dia de comer comida de milho, acender fogueira, beber quentão e ouvir o grande mestre, o rei do baião - Luiz Gonzaga. E é sobre ele que quero ter um dedinho de prosa.

Escutar Luiz Gonzaga para mim sempre foi um prazer, ainda mesmo no tempo em que não havia os tais forrós elétricos, com letras pobres que depreciam a figura feminina. Essas tais bandas descartáveis que levam a massa ao delírio, mas que dentro de 2 anos ninguém mais recordará de uma só música. Pois se escutar o rei do baião era bom alguns anos atrás, digo que escutá-lo hoje em dia é simplesmente um deleite. Ouvir a melodia de suas canções, a letra bem elaborada e com poesia me deixam emocionada e é bem possível que ainda venham umas lágrimas aos olhos. (Sem exagero)

São tantas canções belas que fica difícil escolher uma, mas por hoje deixo  uma música que, para mim, é plena de significados: Paraíba. 

Paraíba
Composição: Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira

Quando a lama virou pedra
E Mandacaru secou
Quando o Ribação de sede
Bateu asa e voou
Foi aí que eu vim me embora
Carregando a minha dor
Hoje eu mando um abraço
Pra ti pequenina

Paraíba masculina,
Muié macho, sim sinhô

Eita pau pereira
Que em princesa já roncou
Eita Paraíba
Muié macho sim sinhô
Eita pau pereira
Meu bodoque não quebrou
Hoje eu mando
Um abraço pra ti pequenina

Paraíba masculina,
Muié macho, sim sinhô

Eita, eita


Um braço pra ti, grande rei do baião.


domingo, 20 de junho de 2010

Adeus ao gajo


Sem muito o que dizer, registro aqui minha singela homenagem e meus sentimentos pela  partida do escritor português José Saramago.

Aqui transcrevo um trecho do que ele escreveu sobre a vida e a morte em sua utópica Jangada de Pedra:

"...as vidas não começam quando as pessoas nascem, se assim fosse, cada dia era um dia ganho, as vidas principiam mais tarde, quantas vezes tarde de mais, para não falar daquelas que mal tendo começado já se acabaram..." (A Jangada de Pedra, p.15)

"...a morte é a suma razão de todas as coisas e sua infalível conclusão, a nós o que nos ilude é esta linha de vivos em que estamos, que avança para isso a que chamamos futuro só porque algum nome lhe havíamos de dar, colhendo dele incessantemente os novos seres, deixando para trás incessantemente os seres velhos a que tivemos de dar o nome de mortos para que não saiam do passado". (ibidem, p.166)

Recomendo:











*****
Para ver:
Entrevista que Saramago concedeu ao repórter brasileiro Edney Silvestre. Clique aqui

Para baixar:
Entrevista concedida a sua esposa Pilar (Clique na foto)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Frio rima com biscoito?


Um dia como hoje só me faz lembrar da música de Djavan, que diz: "Um dia frio, um bom lugar para ler um livro e o pensamento lá em você". 

Mas um dia frio também pede um cafezinho ou um chá bem quentinho e, para acompanhar, um biscoito caseiro é sempre bem-vindo. Essa receita é sugestão da amiga Lydia Soares e em seu bom gosto eu sempre confio. Então, mãos à massa! 

Eis os ingredientes e o modo de fazer:

100 g de açúcar
200 g de margarina
300 g de farinha de trigo

Misture o açúcar com a margarina. Acrescente a farinha e vá mexendo com as mãos. Quando a massa estiver soltando das mãos está no ponto certo para abrí-la (como se fosse uma pizza) e cortar os biscoitinhos no formato que você desejar ou então faça bolinhas e amasse, delicadamente, com um garfo. Disponha os biscoitinhos numa fôrma retangular, untada e enfarinhada e coloque no forno previamente aquecido a 200 graus. Deixe-os lá até que estejam dourados (preste atenção para que eles não passem do ponto). Transfira os biscoitos da forma para um depósito de vidro ou qualquer coisinha bonita para servir. Polvilhe canela  em pó para dar um aroma e sabor todo especial.

Sugiro:
Sirva os biscoitos com chá de maçã com canela. É pecaminoso!

Imagem: internet

terça-feira, 15 de junho de 2010

Fuga


Em poucas horas começará o jogo do Brasil na Copa do Mundo e o país inteiro está ouriçado. Eu gostaria de estar, agora, num lugar onde não fosse possível escutar fogos e vuvuzelas, gritos ensandecidos, palavrões e patriotismo momentâneo. 

Gostaria de fugir para algum lugar onde não tivesse nenhum indício de futebol. Existe esse lugar? Parece que não. Desse modo, acho que vou improvisar um espaço somente para mim e me alhear a essa agitação que em nada me atrai. 

Bye!

domingo, 13 de junho de 2010

O ron-ron do gatinho


O gato é uma maquininha que a natureza inventou;
tem pêlo, bigode, unhas e dentro tem um motor.
Mas um motor diferente desses que tem nos bonecos
porque o motor do gato não é um motor elétrico.
É um motor afetivo que bate em seu coração
por isso ele faz ron-ron
para mostrar gratidão.
No passado se dizia
que esse ron-ron tão doce
era causa de alergia pra quem sofria de tosse.
Tudo bobagem, despeito,
calúnias contra o bichinho:
esse ron-ron em seu peito não é doença - é carinho.

Ferreira Gullar
In: Um gato chamado gatinho

Foto: Margot Félix

quinta-feira, 10 de junho de 2010

O romance de Riobaldo e Diadorim


Ainda recordo o arrebatamento que senti quando li pela primeira vez a obra-prima de Guimarães Rosa, o livro que considero um grande poema em prosa: "Grande Sertão: veredas". As imagens da travessia de Riobaldo ainda povoam minha imaginação e a singular história de amor entre esse jagunço e Diadorim me deixa, até hoje, sem palavras.

O segundo arrebatamento relativo a essa magnífica obra, foi quando ouvi a música intitulada de "O romance de Riobaldo e Diadorim", delicadamente composta pelo fantástico brincante Antônio Nóbrega em parceria com Wilson Freire e que consta no disco "Lunário Perpétuo" (2002)

Ouvir a melodia dessa canção e a voz encantada de Antônio Nóbrega me deixou anestesiada e as imagens que criei ao ler o livro regressaram à minha cabeça como numa explosão. Sem mais o que dizer, deixo aqui a letra da canção e um link para quem se interessar em ouvir e apreciar essa poesia repleta de encantamento.

O romance de Riobaldo e Diadorim
Composição: Antonio Nóbrega e Wilson Freire

Quando eu vi aqueles olhos,
Verdes como nenhum pasto,
Cortantes palhas de cana,
De lembrá-los não me gasto.
Desejei não fossem embora,
E deles nunca me afasto.

Vivemos a desventura
De um mal de amor oculto,
Que cresceu dentro de nós
Como sombra, feito um vulto.
Que não conheceu afago,
Só guerra, fogo e insulto.

Na noite-grande-fatal,
O meu amor encantou-se.
Desnudo corpo inteiro
Desencantado mostrou-se.
E o que era um segredo,
Sem mais nada revelou-se.

Sob as roupas de jagunço,
Corpo de mulher eu via.
A deus, já dada, sem vida,
O vau da minha alegria.
Diadorim, diadorim…
Minha incontida sangria.

Para ouvir ou baixar a música:
Romance de Riobaldo e Diadorim - Antonio Nóbrega.mp3

Imagem: algures na net. 

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Um desabafo


Hoje em dia todos sabem o dia do seu aniversário, todos sabem qual o tipo de comida você prefere, as músicas que você ouve, os filmes que você vê, se você está namorando, se está solteiro ou enrolado. Basta dar um click no Orkut/Facebook de Fulano e lá está seu dossiê. Estão todos unidos e felizes numa teia de amizade.
 
Temos zilhões de amigos nas redes sociais. Enviamos zilhões de “Olá, tudo bem? Estou com saudades”.  Depois respondemos: “Estou bem e você? Vamos nos ver um dia desses.” E está tudo resolvido, cumprimos nossa função de amigo. É simples assim.
 
Conversar cara-a-cara é muito difícil, falta tempo, falta coragem de sair de casa. Conversar pessoalmente dá muito trabalho e é cansativo. É melhor sentar diante do nosso computador e falar com 200 pessoas ao mesmo tempo, ter uma conversa rasa e superficial é mais proveitoso. Afinal, ninguém quer saber dos problemas, muito menos do sucesso alheio. Aprofundar-se nos assuntos é chato e inconveniente.
 
Oferecemos informações de nossa vida em 140 caracteres e isso é suficiente. Sair para tomar um chopp e falar da vida é estressante, é uma maçada. Resolvemos tudo numa twittada. Deixamos para sair com os amigos amanhã, porque agora estamos muito ocupados. Deixo para depois a alegria de apreciar a companhia dos amigos, porque agora tenho que postar esse desabafo.

domingo, 6 de junho de 2010

A Partida


Dei ordem para irem buscar o meu cavalo ao estábulo. O criado não me compreendeu. Fui eu mesmo ao estábulo, ensilhei o cavalo e montei. Ao longe ouvi o som de uma trombeta, perguntei o que significava aquilo. Ele de nada sabia, não ouvira nada.
No portão deteve-me, para me perguntar:
- Para onde cavalga o senhor?
- Não o sei - respondi. Apenas quero ir-me daqui, somente ir-me daqui. Partir sempre, sair daqui, apenas assim posso alcançar minha meta.
- Conheces então, tua meta? - perguntou ele.
- Sim - respondi eu. Já disse. Sair daqui: esta é minha meta.  

Franz Kafka

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Amélie Poulain e o homem cego


Apaixonada por cinema que sou, tenho uma lista considerável de filmes que jamais esquecerei. E nessa lista, obrigatoriamente, teria que figurar o filme "O fabuloso destino de Amélie Poulain" - (2001) do diretor francês Jean-Pierre Jeunet.

Aqui eu poderia contar um pouco da história dessa menina solitária que nasceu no subúrbio de Paris e que quando jovem passou a trabalhar como garçonete num café parisiense. Poderia falar do modo afetivo com que ela lida com as pessoas e alguns objetos. De sua tentativa de dar jeito ao mundo a sua volta. Do seu desejo secreto de viver um grande amor. Enfatizaria, também, a fotografia perfeita de Bruno Delbonnel e a música envolvente de Yann Tiersen. Mas o que eu quero falar é de uma das cenas mais lindas que já vi no cinema.

Num momento de extrema sensibilidade, qualidade que nunca lhe falta, Amélie segura a mão de um homem cego, que vive perambulando pela estação de trem, e como numa valsa ela o conduz pelas ruas, narrando com agilidade e riqueza de detalhes tudo que consegue ver diante de si. Ele escuta com tamanha atenção que ao final da narrativa de Amélie, sente como se ele próprio tivesse enxergado tudo aquilo, e é com as imagens explodindo em sua imaginação que o homem cego alcança o êxtase. 

terça-feira, 1 de junho de 2010

Comer Clarice


Ler Clarice Lispector sempre traz ao leitor a possibilidade de viver uma grande aventura; a aventura de navegar no interior de si mesmo. Saborear Clarice é ter contato com o indizível e o incomunicável. Degustar Clarice sempre nos faz indagar: sou eu quem estou lendo o livro ou o livro quem está lendo a mim? Clarice nos traduz, Clarice nos confunde, Clarice nos devora, Clarice é desconcertante. É que ela não tem a pretensão de agradar, ela simplesmente diz.

"... E não escrevo para te agradar. Principalmente a mim mesma. Tenho que seguir a linha pura e manter não contaminado o meu it" (Água Viva, p.84)

Tudo que se possa dizer acerca da obra de Clarice pode parecer lugar-comum, embora sua obra esteja muito distante de sê-lo. Portanto, para ler seu texto é necessário entrega, pois sua narrativa a todo momento parece desnudar-se sem pudores, para que o leitor tenha a chance de comê-la, sem reservas.

No romance "A Paixão segundo G.H.", ela inicia com uma advertência "A possíveis leitores": "Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente - atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G.H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria"

O leitor empreenderá a penosa viagem e lidará com suas profundezas, suas epifanias e beatitudes. Perplexo fechará o livro e já não será o mesmo, porém a cada releitura entenderá que a viagem sempre será vivenciada de uma nova maneira. Este é o verdadeiro gozo de comer Clarice.

Recomendo: