Páginas

domingo, 29 de agosto de 2010

Pétala que voa


"Quando eu tiver forças de ficar sozinho e mudo - então soltarei para sempre a borboleta do casulo. E mesmo que só viva um dia, essa borboleta, já me serve: que esvoe suas cores brilhantes sobre o brilho verde das plantas num jardim de manhã de verão. Quando a manhã ainda é cedo, se parece igual a uma borboleta leve. O que há de mais leve que uma borboleta. Borboleta é uma pétala que voa."

Clarice Lispector
In: Um Sopro de Vida - 1978

Imagem: Web

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Os botões, a moda e outros detalhes


Estava cá pensando com meus botões... linhas e agulhas, sobre algo que é mais impermanente do que as fases da lua: a moda e outros detalhes.

É que hoje à tarde fui com minha mãe a uma loja de aviamentos para costura comprar botões e linhas para uma roupa que ela encomendou. Ficamos certo tempo escolhendo botões – tarefa mais difícil do que parece - depois fui ver o quê mais havia ali. Da fita para laços ao viés e as cianinhas eu encontrei. Linhas para todos os fins e agulhas também.

Passei mais tempo explorando aquele mundo de detalhes, miudezas e cores do que propriamente para escolher os tais botões. E tudo aquilo me fez recordar um tempo em que eu passava minhas férias de escola em casa da minha tia e madrinha que é costureira. Ainda num tempo em que fazer roupas sob medida era bem comum. Eu gostava de vê-la concentrada, fazendo medições, marcando daqui e dacolá, cortando o pano, para depois ir costurar. Dali a algumas horas, aquele pano virava uma roupa tal qual estava no desenho que sua cliente levara. Para mim aquilo era fantástico, era pura mágica e até hoje tenho grande admiração por quem tem esse talento.

Minha ida a essa loja, além de trazer essas recordações, também me fez pensar no quanto hoje em dia nossa criatividade é deixada de lado. É tudo tão impessoal, nós vamos a uma loja, encontramos roupas que nem sempre são do nosso agrado, algo criado por alguém que não conhece nossa personalidade, nosso tamanho, nosso gosto. E temos que nos adequar àquilo.
 

Na moda individualidade não conta. Somos levados a consumir um produto que além de ser, na maioria das vezes, de péssima qualidade é confeccionado em série (com mão de obra barata), como se fôssemos uma manada. Isso para não falar no que nessa primavera é super-tendência, na próxima já será um grande pecado usar. 

E com isso, todo aquele ritual – que consome tempo e paciência, é certo - de comprar o tecido e aviamentos, escolher o modelo, levar a uma costureira, aguardar o dia de provar, para depois usar aquela roupa feita exatamente para você, entrou em desuso, infelizmente é algo antiquado.


Imagem: Web

domingo, 22 de agosto de 2010

Reinvenção


A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas. . .
Ah! tudo bolhas
que vêm de fundas piscinas
de ilusionismo... – mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço...
Só - no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só - na trevas
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Cecília Meireles
In: Flor de Poema


Imagem: Web

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Fotografia

No dia da fotografia e do fotógrafo, presto uma pequena homenagem aos fotógrafos profissionais e amadores, compartilhando algumas  das belíssimas fotografias em P&B do fotógrafo parisiense que escolheu a cidade de Salvador (Bahia) para viver: Pierre Verger.







Clique aqui para ler uma de suas entrevistas, concedida ao jornalista Luis Pellegrini.

Imagem 1: Compartilhada no facebook pela amiga Teceres.
Fotografias: Pierre Verger - na web.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Up - Altas Aventuras


Os filmes de animação da Pixar sempre me deixam de boca aberta, tamanho são os detalhes e cuidado com que tudo é realizado. Hoje vi mais uma animação e fiquei encantada.

“Up – Altas Aventuras” (2009) conta a história do senhor de idade que, para não perder sua casa para as garras do mundo capitalista, faz uma retirada “por cima”. Srº Carl Fredricksen é um antigo vendedor de balões e dada sua experiência com esse leve objeto, enche milhares de balões e faz com que sua ameaçada casinha levante voo, começando assim a incrível aventura que ele e Ellen, sua falecida esposa, tanto sonharam quando jovens.

O objetivo de Fredricksen é explorar uma floresta na América do Sul e viver ao lado de uma imensa cachoeira. Mas, para seu terror e maior responsabilidade, ele logo descobre que a bordo dessa aventura está o menino Russell, pequeno escoteiro de 8 anos que, 1 dia antes do grande acontecimento,  esteve em sua porta oferecendo ajuda.

Após planar por cidades e campos a casa flutuante chega ao seu destino. Fredricksen mal pode acreditar que está tão próximo de realizar sua grande fantasia, mas aquele era apenas o começo de grandes atropelos. E numa longa e penosa caminhada, a casa precisa ser puxada pelos dois, pois o ponto exato onde ela deveria ficar não era aquele. Apesar de tudo, eles conseguem atingir o tão almejado objetivo, embora Fredricksen tenha logo percebido que toda aquela empreitada em nada havia resultado. Pois, o que ele realmente queria era compartilhar aquele momento com Ellen que não estava mais presente.


Para mim, essa singela e fantasiosa história, além de ser divertida e comovente, é uma metáfora do que muitas vezes acontece com alguns dos nossos sonhos. A princípio podemos levitar só de pensar em sua realização, mas se não ficarmos atentos podemos carregar o peso de uma fantasia que nos levará a lugar nenhum, ou que na melhor das hipóteses nos abrirá caminho para um destino completamente diferente e mais promissor. Tal como Fredricksen que começou flutuando em sua casa e depois teve que levá-la nas costas, até perceber que não era exatamente aquilo que ele queria, embora tenha ganhado amigos sinceros. Certamente o Srº Fredricksen muito aprendeu com sua jornada, mas deve ter percebido quantas pessoas estiveram em situação de risco por causa de um mero capricho.


domingo, 15 de agosto de 2010

Gato


O homem mora na casa do gato,
que o tolera por política.

Carlos Drummond de Andrade
In: O avesso das coisas


Foto: Margot Félix

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

E se eu quiser desistir dos meus sonhos?


Há uma frase muito repetida e que para mim é um clichê chato e piegas. "Nunca desista dos seus sonhos" - acho essa frase/conselho, que sempre surge nas horas que menos quero ouvi-la, de uma tremenda ingenuidade ou até mesmo de muita falta do que dizer.

A bendita frase/conselho, que é título de uma famoso livro de auto-ajuda, me remete ao filme "Á procura da felicidade", que fala do pai que, para não desistir dos seus sonhos, arrebentou com sua vida de casado, fez seu filho dormir em banheiro de estação de trem, se fez passar por alguém que não era, somente para agradar pessoas de classe social mais alta do que  a dele, etc e fez milhões de pessoas chorar nas salas de cinema e acreditar que vale tudo para ser rico, até mesmo separar da mãe o próprio filho.

E se eu quiser desistir dos meus sonhos, então serei uma fraca? Serei uma descrente? Não sei. Sei apenas que é sempre salutar reavaliarmos aquilo que desejamos. E se o que sonhei, 15 anos atrás, para minha vida atual não aconteceu, eu devo me frustrar e chorar pitangas (tá, vai. Chorar só um pouquinho faz bem) ou fazer o impossível para realizar o sonho ainda que para isso eu passe por cima de alguém? Tudo para não quebrar o famoso preceito de "Nunca, never more, desistir dos meus sonhos".

Nenhuma das opções. Não sou de acordo com essa alienação, pois para mim sonhos devem ser reformulados, reinventados, re-sonhados. É certo que devemos fazer uma forcinha para que se realizem, mas sofrer e acreditar que a felicidade só estará ao meu favor se o danado do sonho se realizar do mesmo jeitinho que sonhei zil anos atrás, isso não é mesmo comigo.

Eu desisto dos meus sonhos se percebo que me equivoquei, desisto se percebo que vou prejudicar alguém, desisto dos meus sonhos porque eu tenho uma capacidade infinita de Sonhar. Apanho sonhos e vou filtrando.


Imagem: Sonhada algures na web.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Uma janela e sua serventia


Quando um poeta publica um livro a impressão que tenho é de que o mundo fica um pouco mais bonito. E quando esse livro vem de uma poetisa do calibre de Adélia Prado, posso dizer que o mundo cria um frescor de dias de sol ameno, daqueles dias que antecedem a Primavera. Foi esse frescor, essa leve aragem, que senti quando eu soube do lançamento, após um hiato de 10 anos, do livro da poetisa mineira: “A duração do dia” (2010).
 
Ainda não tenho o livro em mãos, mas já fiz uma prévia leitura de alguns dos poemas e do pouco que li, percebo que seu tino de poeta segue a mesma linha. É a poesia que transcende o banal e as trivialidades da vida diária e feminina: da mulher que “servindo, se torna rainha”.
 
Os versos escritos em linguagem coloquial são conduzidos por temas recorrentes em diversos poetas, mas são nos gestos mais simples, naquilo que parece irrelevante, que Adélia faz brotar encantamento e perplexidade, revelando assim toda a força e distinção de seu fazer poético.
 
Ler Adélia Prado é ser levado a um mundo que nos pertence, mas parece invisível. É debruçar-se numa janela e compreender sua serventia.

Uma Janela e sua serventia
 
Hoje me parecem novos estes campos
e a camisa xadrez do moço,
só na aparência fortuitos.
O que existe fala por seus códigos.
As matemáticas suplantam as teologias
com enorme lucro para minha fé.
A mulher maldiz falsamente o tempo,
procura o que falar entre pessoas
que considera letradas,
ela não sabe, somos desfrutáveis.
Comamo-nos pois e a desconcertante beleza
em bons bocados de angústia.
Sofrer um pouco descansa deste excesso.


Adélia Prado
In: A duração do dia - 2010

Foto: Miguel Pessoa Vidal 
(Fotografia feita sob encomenda para esse post)

domingo, 8 de agosto de 2010

Omelete de Amoras


Esta é uma parábola sobre os pequenos prazeres da vida que não podem ser objeto de consumo.

Era uma vez um rei que tinha todos os poderes e tesouros da Terra, mas apesar disso não se sentia feliz e a cada ano ficava mais melancólico.
Um dia ele chamou o seu cozinheiro preferido e disse: "Você tem cozinhado muito bem para mim e tem trazido para a minha mesa as melhores iguarias, de modo que eu lhe sou agradecido. Agora, porém, quero que você me dê uma última prova de sua arte. Você deve me preparar uma omelete de amoras iguais àquelas que eu comi há cinqüenta anos, na infância."
Naquele tempo, meu pai tinha perdido a guerra contra o reino vizinho e nós precisamos fugir: viajamos dia e noite através da floresta, onde afinal acabamos nos perdendo. Estávamos famintos e cansadíssimos, quando chegamos a uma cabana onde morava uma velhinha que nos acolheu generosamente. Ela preparou para nós uma omelete de amoras, quando a comi, fiquei maravilhado: a omelete era deliciosa e me trouxe novas esperanças ao coração.
Na época eu era criança, não dei importância à coisa. Mais tarde, já no trono, vasculhei todo o reino, porém não foi possível localizá-la. Agora quero que você me atenda esse desejo: faça uma omelete de amoras igual à dela. Se você conseguir, eu lhe darei ouro e o designarei meu herdeiro, meu sucessor no trono. Se você não conseguir, entretanto, mandarei matá-lo".
Então, o cozinheiro falou: “Senhor, pode chamar imediatamente o carrasco”.
É claro que eu conheço todo o segredo da preparação de uma omelete de amoras, sei empregar todos os temperos. Conheço as palavras mágicas que devem ser pronunciadas enquanto os ovos são batidos e a melhor técnica para batê-los. Mas não me impedirá de ser executado, porque a minha omelete jamais será igual à da velhinha. “Ela não terá o sabor picante do perigo, a emoção da fuga, não será comida com o sentido alerta do perseguido, não terá a doçura inesperada da hospitalidade calorosa e do ansiado repouso, enfim conseguido. Não terá o sabor do presente estranho e do futuro incerto". Assim falou o cozinheiro.
O Rei ficou calado, durante algum tempo.
Não muito mais tarde, consta que lhe deu muitos presentes, tornou-o um homem rico e despediu-o do serviço real.

Walter Benjamin
In: "Rua de Mão Única". Obras Escolhidas II. 5.ed. São Paulo: Brasiliense - 1995 p.119-120

Imagem: Web

terça-feira, 3 de agosto de 2010

1 Ipad ou 100 livros?

Questionado sobre o fim do livro e a supremacia das novas tecnologias, Umberto Eco respondeu:

"O livro, para mim, é como uma colher, um machado, uma tesoura, esse tipo de objeto que, uma vez inventado, não muda jamais. Continua o mesmo e é difícil de ser substituído. O livro ainda é o meio mais fácil de transportar informação. Os eletrônicos chegaram, mas percebemos que sua vida útil não passa de dez anos."

Eu concordo plenamente com Umberto Eco. Os adoradores de gadgets que me perdoem, pois não há prazer que se compare com a delícia de ir a uma livraria, passar uma tarde inteira borboletando por aquelas estantes, folheando livros e mais livros, sentindo seu cheiro peculiar, namorando aqueles que ainda não podemos comprar e ao final daquela expedição inebriante, trazer para casa ao menos um volume. Um só é suficiente para alegrar o dia.

Gosto dos livros porque, do leitor, eles nada exigem. Não preciso recarregar sua bateria, nem transferir arquivos, tampouco instalar programas para lê-lo. O livro quer somente ser aberto, lido e riscado, sim, livros adoram receber anotações e impressões. E isso eu posso fazer em casa, na praça, numa fila de banco e até mesmo enquanto espero um amigo para um café.

Essa semana, no site Skoob, saiu uma promoção chamada “1 Ipad ou 100 livros?” A promoção consiste, apenas, no sorteio de um Ipad ou 100 livros de uma lista estabelecida pelo site, e cabe ao participante escolher um dos dois prêmios. Acho que receber tantos livros de uma só vez é sonho de consumo de qualquer leitor amigo do livro, mas para minha própria surpresa, não fiz a escolha por 100 livros. Optei pelo gadget, pois, estive olhando a lista e apenas 10% do que havia ali realmente me interessa e nem seria de interesse imediato.

Parece um pouco contraditório mas, nesse caso, um Ipad seria mais útil e ecológico, do que certas publicações que algumas editoras, com avidez de vender, terminam oferecendo aos leitores incautos. Digo que o Ipad é ecológico porque, de certa forma, evita a queda de árvores para a confecção de livros “descartáveis”. Sem esquecer, claro, que os gadgets também são responsáveis por algumas devastações do meio-ambiente, mas isso é mote para outro post. (#soueco-chatasemculpa)

E foi por ter essa opinião de eco-chata que optei pelo gadget. Mas que fique bem claro: eu amo livros e acho que o livro não terá fim... enquanto houver árvores, claro!

Aqui fica o link aos interessados pela promoção:

http://www.skoob.com.br/promocao/codigo/114091


 “Pegar um livro e abri-lo guarda a possibilidade do fato estético. O que são as palavras dormindo no livro? O que são esses símbolos mortos? Nada, absolutamente. O que é um livro se não o abrimos? Simplesmente um cubo de papel e couro, com folhas; mas se o lemos acontece algo especial, creio que muda a cada vez.”
Jorge Luís Borges


Imagem: O Silêncio dos Livros

domingo, 1 de agosto de 2010

Canção de Esperança


A Esperança
Tece a linha do horizonte
Traz tanta paz
Em reluzente e doce olhar
Que nos conforta
Quando o mar não é tão manso
Quando o que resta
É só o frio sem luar.


E nasce leve, devagar
Em uma canção de ninar
Que nos acolhe pra dizer
O Amor jamais deixou você.


Oh, Esperança, és
Para sempre, sempre viva
Te ofereço minha casa pra morar
Nos meus sentidos
Quero ter os teus conselhos
Na minha voz
Eu quero sempre ir te encontrar.


Se alguma coisa eu temer
Estou contando com você
Pra me dizer ao me acalmar
Que o amor jamais me deixará.


E nasce leve, devagar
Em uma canção de ninar
Que nos acolhe pra dizer
O amor jamais deixou você.


Canção de Esperança - Flávia Wenceslau
Quase Primavera - 2005

Imagem: web