Páginas

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Dos pequenos prazeres


Quem assistiu ao filme “O fabuloso destino de Amélie Poulain” (2001), deve lembrar-se como Amélie se deleitava com pequenas delícias, tais como juntar pedrinhas no bolso para atirá-las no canal Saint Martin; enfiar as mãos nos sacos de grãos; quebrar com a colher a crosta do creme brulée.
 
Falar de nossos pequenos prazeres é mostrar um pouco de nossas excentricidades. É abrir um compartimento que quase sempre mantemos fechado. No entanto, baseada nas pequenas delícias de Amelie, vou abrir uma das gavetas e revelar algo de mim a partir das coisas que temperam os meus dias e mexem com meus sentidos.
 
-Fazer café coado, bem forte, só para sentir seu aroma.
-Cheirar livros novos ou velhos.

-Escrever em caderno novo.
-Comer pizza gelada com café bem quente.
-Mexer massa de bolo e acompanhar seu crescimento no forno.
-Beber o primeiro gole de uma cerveja bem gelada.
-Sacar a rolha do vinho e ouvir o “ploc!
-Sentir o cheiro peculiar dos lugares verdes e arborizados. (A cidade de João Pessoa tem esse cheiro como nenhuma outra)
-Ouvir, ao longe, música com melodia gostosa.
-Comer algo doce e beber água com gás.
-Escolher frutas no mercado ou, ainda melhor, colher a fruta diretamente da árvore e saboreá-la ali mesmo.
-Ouvir o ron-ron dos meus gatinhos.


Essas são algumas das coisinhas - aparentemente tolas - que carregam meu espírito para outro lugar e me dão gosto de viver.  

Todos têm dessas esquisitices, mas é tão bom, tão mais prazeroso quando encontramos alguém com quem compartilhá-las, assim como aconteceu com Amélie Poulain e seu amado Nino Quincampoix. 


 E você, abriria sua gavetinha de guardados e diria quais seus pequenos prazeres?

domingo, 26 de setembro de 2010

Escrever


"Todo o mundo que aprendeu a ler e escrever tem uma certa vontade de escrever. É legítimo: todo ser tem algo a dizer. Mas é preciso mais do que a vontade de escrever. Ângela diz, como milhares de pessoas dizem (e com razão): "minha vida é um verdadeiro romance, se eu escrevesse contando ninguém acreditaria". E é verdade. A vida de cada pessoa é passível de um aprofundamento doloroso e a vida de cada pessoa é "inacreditável". O que devem fazer essas pessoas? O que Ângela faz: escrever sem nenhum compromisso. Às vezes escrever uma só linha basta para salvar o próprio coração."

Clarice Lispector
Um Sopro de Vida - 1978

Recomendo:

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Para saudar a Primavera


O Sol radioso ilumina o jardim, acalentando cuidadosamente cada uma das flores.
Os beija-flores - exibindo cores irisadas - beijam, só beijam.
Os ventos que sopram Esperança fazem cócegas nas árvores altivas e frondosas  que se balançam elegantemente.
A roseira - rainha de todo jardim - exala sua fragrância gratuitamente.
A Lua plena, da noite anterior, não é vista mas está presente, gravemente bela.
E os passarinhos confabulam entre si, saltitam de alegria e exclamam:
A Primavera chegou!


 As Quatro Estações - Concerto nº1 (Allegro) - "A Primavera"
Antonio Vivaldi 
Foto: Margot Félix

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

About Angels


Nesse último final de semana tive a oportunidade de conhecer o grupo de dança contemporânea Gestus. O grupo, com o projeto “About Angels”, apresentou dois espetáculos intitulados de “Microdanças que se desfazem...” e “Sobre todos nós”. Ambos são belíssimos, mas foi o segundo que me deixou encantada.
 
Não entendo do assunto, portanto não saberia falar sobre o espetáculo com os devidos e merecidos detalhes, mas como aprecio quase todas as vertentes da dança, penso que ver e sentir já basta.

Em “Sobre todos nós” os dançarinos trouxeram ao palco um pouco da vivência do mundo da criança. Nós, expectadores, somos transportados para um universo lúdico, pleno de singelezas. Mas, por outro lado, também nos deparamos com situações de carência e desejos velados que somente na vida adulta passamos a ter consciência. O espetáculo consegue tocar no nosso íntimo e como num espelho conseguimos nos enxergar bem ali. E foi ao ver essa dança que senti vontade de pular no palco e fazer parte daquele corpo de baile que falava sobre todos nós.



 Para ver alguns trechos da dança clique aqui

domingo, 19 de setembro de 2010

Idílio


Como eu preciso de campo,
de folhas, brisas, vertentes,
encosto-me a ti, que és árvore,
de onde vão caindo flores
sobre os meus olhos dormentes.

Encosto-me a ti, que és margem
de uma areia de silêncios
que acompanha pelo tempo
verdes rios transparentes;
tua sombra, nos meus braços,
tua frescura, em meus dentes.

Nasce a lua nos meus olhos,
passa pela minha vida...
- e, tudo que era, resvala
para calmos ocidentes.
Caminhos de ar vão levando
pura e nua essa que andava
com as roupas mais diferentes.

Olham pássaros, das nuvens,
entre a luz dos mundos firmes
e a das estrelas cadentes.
E o orvalho da sua música
vai recobrindo o meu rosto
com um tremor que eu conhecia
nos meus olhos já levados,
idos, perdidos, ausentes...

(Leve máscara de pérolas
na minha face não sentes?)

Cecília Meireles
In: Vaga Música - 1942

Imagem: Web

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

E quem gira o mundo?


Essa foi uma das perguntas que ouvi de um garotinho de aproximadamente seis anos, em plena idade dos porquês. E das indagações que ele vinha fazendo à sua mãe - que estava muito distraída para responder – essa foi a que me deixou mais inquieta.

Senti vontade de olhar bem nos olhos daquele menino e responder:

Quem gira o mundo é o poeta com a Utopia dita em versos, com a Esperança de realizar o impossível. 
Quem gira o mundo é o palhaço com seu gesto e seu gosto de provocar o riso. 
Quem gira o mundo é o passarinho, que é mais leve do que o ar. 
Quem gira o mundo são todos os animais, que sabem conviver em harmonia entre seus iguais.
Minha doce criança, quem gira o mundo é você, que tem o coração puro e todas as perguntas que nenhum adulto sabe responder.


Imagem: Web

domingo, 12 de setembro de 2010

Boi de Haxixe

 
Quando piso em flores,
Flores de todas as cores.
Vermelho sangue,verde-oliva, azul celestial
Me dá vontade de voar sobre o planeta
Sem ter medo da careta
Na cara do temporal.
Desembainho a minha espada cintilante
Cravejada de brilhantes
Peixe-espada vou pro mar.
O amor me veste com o terno da beleza
E o saloon da natureza
Abre as portas pra eu dançar.

Diz o que tu quer, eu dou.
Se tu quer que eu vá, eu vou.

Meu bem, meu bem-me-quer,
Te dou meu pé meu não
Um céu cheio de estrelas
Feitas com caneta bic num papel de pão.


Boi de Haxixe - Ceumar [Dindinha- 2000]
Composição: Zeca Baleiro

*[Para aquele que abre as portas pra eu dançar]

Imagem: Web

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A pausa


“A vida necessita de pausas”. Foi seguindo o conselho do sempre assertivo Drummond que num dia de nuvens escuras eu me permiti dar uma pausa e desacelerar.

Reservei um tempinho e fui fazer uma pequena caminhada no parque, depois estendi uma toalha na grama. Abri um livro que levei comigo, mas não consegui me concentrar. Levantei os olhos e vi três passarinhos a bicar algum resto de comida que alguém deixara em cima de um banco. Tentei conciliar a leitura, mas pensei que não havia solução a não ser fechar o livro - que àquela altura nada tinha a me dizer – e usufruir daquela tarde silenciosa que eu pouco havia parado para escutar.

Repousei meu corpo na toalha e senti o frescor da grama que havia sido molhada pela neblina da noite anterior. Estirei minhas pernas, que só nesse momento constatei o quanto estavam tensas. Apoiei a cabeça nas mãos e fechei os olhos. Ali era somente eu e eu... e alguns passarinhos por perto.

O silêncio não era completo, pois se ouviam gritos de crianças ao longe, o ir e vir dos carros lá fora, o soprar do vento por entre as árvores e, também, os pássaros. Mas aos poucos consegui me desvencilhar de tudo e nas pausas desses tais ruídos pude ouvir atentamente o silêncio, num breve momento pude escutar o meu Silêncio.

Não era necessário pensar, refletir, analisar, tampouco orar. Ali, naquele instante, eu estava comungando com algo tão forte que não sei explicar. Nem pretendo fazê-lo.

Abri os olhos e vi com toda clareza que aquelas nuvens escuras e pesadas haviam se dissipado e o Sol estava mesmo ali, aquecendo meu corpo estendido na grama verdinha. As pernas estavam leves, o coração estava leve.

Até senti preguiça de levantar, mas precisava ir, pois aquela era somente uma pausa. A pausa que restaurou um dia.

Imagem: Web

domingo, 5 de setembro de 2010

Tempo de Delicadeza


É necessário, com certa presteza, recuperar o estilo felino da delicadeza
[...]Sejamos delicados. E, se necessário for, cruelmente delicados.

Affonso Romano de Sant'Anna
In: Tempo de Delicadeza


Para ler a crônica na íntegra clique aqui para baixar. 

Foto: Margot Félix

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Quero livro


Quando alguém me sugere um livro e diz que ele prende do início ao fim, eu fico logo desconfiada, pois o que eu quero mesmo é livro que me liberte, quero livro que abra janelas e me faça ver longe.

Não, eu não quero livro para ler de uma só vez. Eu quero livro para degustar, para comer lentamente e se, por ventura, houver alguma passagem indigesta, sentirei náuseas por alguns instantes, mas saberei que foi bem ali onde fui provocada e, certamente, será daquele trecho que eu sempre lembrarei com mais intensidade. Não quero livro que sacia, quero livro que deixa o gosto de ser revisitado.

Sim, eu quero livro que me provoque e traga a agradável sensação de que estou viva, viva. Nada que me prende me interessa, por isso eu quero a liberdade de transitar por suas páginas, linhas e entrelinhas. Quero ir e voltar na leitura, adiar o seu final quantas vezes for preciso, para que o gozo de concluí-lo seja uma espécie de epifania. Eu quero livro para “saltar para dentro da vida”.


Imagem: Web