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domingo, 31 de outubro de 2010

O anjo torto II - Infância

Hoje, que também é dia do Saci (viva o Saci Pererê), é o dia do meu poeta preferido. O mineirinho de fala mansa e palavras arrebatadoras: Carlos Drummond de Andrade. Por isso, a "Escola Dominical" dessa semana é especialmente dedicada a ele.



Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras.
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu...Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro...que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Carlos Drummond de Andrade
In: Alguma Poesia - 1930


Reunião - O Brasil dizendo Drummond - Edson Celulari

Imagem: Drummond aos 2 anos (salvo erro)

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O anjo torto

“Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.”

A 31 de outubro de 1902 o anjo torto anuncia o nascimento do menino franzino que faria da linguagem o seu reino. Carlos Drummond de Andrade, homem tímido e reservado foi poeta de engenho e arte, contista de verve e cronista do seu próprio tempo e do tempo futuro.

Com as palavras mais simples - mas nunca ingênuas - Drummond arquitetou sua obra. Foi ele quem pôs a pedra no meio do caminho. Difícil transpô-la, porém inesquecível, pois essa é a pedra fundamental para ingressar no mundo do poeta gauche.

Sobre o fazer poético ele dizia:

“Entendo que a poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser à mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos”.

Drummond foi poeta engajado e num "catar feijão" - à moda de João Cabral de Mello Neto - armou-se com palavras certeiras, mas vestiu-se com lirismo. Carlito também foi vate do Amor, da Esperança e das Reminiscências.
(Continua...)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Sete-Sóis e Sete-Luas

A Literatura tem dessas facetas, lemos um livro e, irremediavelmente, nos apaixonamos por seus personagens.

Acabo de ler “Memorial do Convento”, romance histórico de José Saramago e fiquei enamorada por Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas.

Baltasar Mateus, de alcunha Sete-Sóis, é o homem de modos simples que regressou da guerra, onde deixou sua mão esquerda. E por ser maneta, tornou-se inábil para o trabalho, ficando, assim, largado à própria sorte. Blimunda de Jesus, Sete-Luas porque vê dentro das pessoas. É a mulher obstinada que abriga dentro de si a lealdade e fidelidade pelo homem que encontrou no momento e da forma mais improvável: num auto-de-fé onde sua mãe estava sendo julgada por bruxaria pela Inquisição.

O amor entre esse “casal ilegítimo por sua própria vontade”, deu-se já com a primeira troca de olhares.

"Que nome é o seu, e o homem disse, naturalmente, assim reconhecendo o direito de esta mulher lhe fazer perguntas, Baltasar Mateus, também me chamam Sete-Sóis."

“Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires, Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar, Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste, Não sabes de que estás a falar, não te olhei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo.”

Sei que esse romance genial é muito mais do que essa simples história de amor e cumplicidade. Porém, buscar a leveza das coisas também é legítimo e eu deliciei-me com esse casal e a força que os uniu até o fim. Se é que teve fim!

Recomendo (muitíssimo):

domingo, 24 de outubro de 2010

Flores


É nestas flores, em particular, que
vejo desenhar-se uma linha que me leva
de mim a ti, passando sobre um campo
invisível, onde já não se ouvem
os pássaros, e onde o vento não faz cair
...as folhas. Estamos em frente de um canteiro
puramente abstracto, e cada uma destas flores
nasceu das frases em que o amor se manifesta,
e do movimento dos dedos sobre a pele,
traçando um fio de horizonte
em que os meus olhos se perdem. Por isso estão
vivas, e alimentam-se da seiva
que bebem nos teus lábios, quando os abres,
e por instantes a vida inteira se resume
ao sorriso que neles se esboça. 

Nuno Júdice
In: Poesia Completa

 Imagem: Web

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Estória do Gato e da Lua


"Um poema. Uma estória feita de silêncio e de cumplicidade. 
Luz e sombra, o apelo da noite, a lua como paixão... 
Esta é a estória de quem tentou tornar o sonho realidade, a estória do gato e da lua."

 
 Realização: Pedro Serrazina - 1995


E o tempo passou... agora já não corro, espero apenas. O resto não importa.

domingo, 17 de outubro de 2010

O amor...


Fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor. Eu sei exactamente o que é o amor. O amor é saber que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer. O amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte de nós que não é nossa. O amor é sermos fracos. O amor é ter medo e querer morrer.

José Luís Peixoto
In: A criança em ruínas

Imagem: Web

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Banana Cake (para adoçar aulas de inglês)



Quem me conhece sabe (e quem não me conhece fica sabendo) da dificuldade que sempre enfrentei para aprender a língua inglesa. E foi por teimosia que alguns anos atrás resolvi fazer um cursinho. No entanto, após dois anos, terminei constatando que esse idioma não quer nada comigo. My Gosh!

As aulas eram dinâmicas, os professores empenhados (a aluna aqui que era um pouco rebelde), a turma era divertida e muito unida, mas eu precisava de alguma estratégia para não esmorecer. Foi quando tive a ideia de levar para a turma, sempre que possível, o meu famoso bolo de banana. 

Antes das aulas nos reuníamos na lanchonete da escola, que logo apelidamos de “Central Perk” e enquanto conversávamos coisas sobre o céu, a terra a água e o ar... comíamos o bolo. O tal banana cake fez tamanho sucesso que até os alunos de outras turmas, professores e funcionários tiveram oportunidade de prová-lo. =p

Nunca revelei a receita, que não é segredo de família; tampouco criação minha, mas hoje vou deixar os apontamentos para quem se interessar em fazer e comprovar como esse bolo é ótimo para um café, chá da tarde... ou para aguçar a vontade de aprender um idioma que não gosta de você... ou que você não gosta.
 
Banana Cake
* 2 xíc. (chá) de farinha de trigo * 2 xíc. (chá) de açúcar (ou 1 e meia) * 2 ovos inteiros * 100g de manteiga derretida (2 colheres cheias) * 2 colheres (chá) de fermento em pó * 150ml de leite * 1 pitada de sal * 4 bananas * Canela em pó (a gosto).
Num recipiente, misture todos os ingredientes secos (exceto o fermento), acrescente os ovos, a manteiga derretida e o leite. Com uma colher de pau mexa bem a massa... mas com carinho. Depois coloque fermento e misture cuidadosamente. Passe a massa para uma forma redonda sem furo central, por cima distribua as rodelas de banana e, para finalizar, polvilhe canela em pó (a gosto). Leve ao forno pré-aquecido em 250° e deixe-o assar por, aproximadamente, 45 minutos. 

***
Dedico esse post àqueles que alegraram meus dias e me fizeram pensar que eu aprenderia inglês assim como faço um bolo... num clic. Não aprendi (não como deveria), mas sou imensamente grata por ter encontrado uma turma tão bacana e divertida e, principalmente, meus queridos friends Alexandre, Júlio e Lydia. “I’ll be there for you!”

Imagem 1: Web
Imagem 2: Margot Félix

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A incapacidade de ser verdadeiro

Este é um conto do meu querido Carlos Drummond de Andrade para as crianças de todas as idades e de todos os tempos. Um conto para o Dia das Crianças.

Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões-da-independência cuspindo fogo e lendo fotonovela.

A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo. Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias.

Quando menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:

-Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia.

Carlos Drummond de Andrade
In: Histórias para o Rei

Imagem: Web

domingo, 10 de outubro de 2010

Receita para não engordar sem necessidade de ingerir arroz integral e chá de jasmim


Pratique o amor integral
uma vez por dia
desde a aurora matinal
até a hora em que o mocho espia.

Não perca um minuto só
neste regime sensacional.
Pois a vida é um sonho e, se tudo é pó,
que seja pó de amor integral.

Carlos Drummond de Andrade
In.: Declaração de amor - Canção de namorados
Imagem: Web

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Traduzir-se

 Com licença poética...
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

Ferreira Gullar
In: Na Vertigem do Dia (1975-1980)

Traduzir-se - Chico Buarque e Fagner - 1998

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Irmão Sol, Irmã Lua


O genial cineasta italiano Federico Fellini, gostava de dizer que “o cinema é um modo divino de contar a vida”. E foi de um modo divinamente poético que o também italiano Franco Zeffirelli retratou a vida de Francisco de Assis no filme “Irmão Sol, Irmã Lua” (1972).

Com imensa delicadeza Zeffirelli conta a fascinante história desse jovem cavaleiro que ao chegar da guerra, doente e deprimido, decidiu abdicar de todo luxo e excesso que sua família podia lhe oferecer, para comungar com o que havia de mais simples ao seu redor e também para apoiar aqueles que eram subjugados pelos poderosos de sua época.

O irmão Sol, como ficou conhecido, tinha uma relação de amor e respeito por todos os animais. Sua experiência com a natureza não era tão somente de preservação ambiental, era na verdade a vivência de quem tinha plena consciência de que tudo, inclusive nós, fazemos parte de um todo.  Seu amor pela natureza era incondicional.


 A Francisco, além de diversos seguidores, quem também estendeu a mão à sua causa foi a doce e abnegada Clara – a irmã Lua. Juntos, ambos realizaram grandes obras de caridade que trouxeram sentido para a vida dos necessitados e, principalmente, para suas próprias vidas, “dia após dia, pedra sobre pedra”.

Esse filme, que contém cenas líricas e arrebatadoras, merece ser visto pelos que têm admiração pelo Francisco de Assis, homem virtuoso e idealista, mas que também tinha suas fraquezas. Merece ser visto pelos que o consideram Santo. E merece ser visto, pelos que apreciam um bom filme realizado com arte e sutilezas.

Paz e Bem!

domingo, 3 de outubro de 2010

Eleição

Uma eleição é feita para corrigir o erro da eleição anterior, mesmo que o agrave.
 *
Se a maioria do eleitor é fraca, a do eleito o é mais ainda.

*
A eleição é um processo democrático de escolher o melhor, o sofrível e o pior, sem distinção.

Carlos Drummond de Andrade
In: O Avesso das Coisas

Imagem: Web