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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Dos assaltos, reinvenções e acontecências de 2010

“Ah, as coisas influentes da vida chegam assim sorrateiras, ladroalmente”.

Faço minhas as palavras de Riobaldo, o jagunço existencial do “Grande Sertão: Veredas”. Olhando para o ano que passou percebo que fui assaltada. Sim, fui tomada de assalto pela paixão pelas imagens retidas – a fotografia.

Há tanto tempo que eu estou pertinho desta arte, mas foi somente agora que qualquer coisa despertou e as imagens começaram a explodir da minha cabeça, da minha barriga, dos meus poros e eu já não sei passar muito tempo longe de uma câmera, já não quero estar longe do mundo mágico das luzes, sombras e perspectivas. Estou grávida de imagens!

Descobri que a fotografia pode ser a reinvenção da realidade e, principalmente, que ela também nos reinventa. O olhar de quem ingressa pelas veredas da fotografia jamais voltará a ser o mesmo.

Mas houve outro assalto: a criação deste blog. Esse foi o ano em que passei a entender melhor esse microcosmo que é a blogosfera. Com a ajuda de amigos e uma boa dose de paciência e perseverança, eu construí a minha página na web – o Compartimento Secreto para Coisas Pequenas, mas que também comporta coisas grandes. (Agradeço aos que estão sempre presentes.)

Pensando bem, as lembranças de 365 dias vêm sempre em retalhos – ora grandes ora pequenos -, e fazendo um justo balanço, eles são, em sua maioria, perfeitos para confeccionar uma bela colcha de boas recordações. 

E que venha 2011 com mais retalhos de poesia, epifania, paixão e desejo!

***

Promessas (realizáveis) de Ano Novo:
-Continuar meus estudos e práticas de fotografia.
-Continuar blogando.
-Revisitar, cuidadosamente, o livro “Grande Sertão: Veredas.

Desejo de Ano Novo:
Que 2011 seja um ano de “acontecências” (de grandes e boas acontecências)

Imagem: Shiori Matsumoto

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Magnólia


Para a Magnólia das nebulosas
Magnólia caleidoscópica
Mag Sol Mag Lua Mag Mag Mar
Eu disse Magnólia!
Feliz Aniversário, minha irmã querida!

Magnólia - Jorge Ben Jor 
A Tábua de Esmeralda - 1974

Imagem: Web 

domingo, 26 de dezembro de 2010

Minha liberdade

"Minha liberdade pequena e enquadrada me une à liberdade do mundo - mas o que é uma janela senão o ar emoldurado por esquadrias?"


Clarice Lispector 
In: Água Viva

Foto: Miguel Pessoa Vidal - Cavalos no Gelo - 2010

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Morte e Vida Severina (auto de Natal pernambucano)


APROXIMA-SE DO RETIRANTE O MORADOR DE UM DOS MOCAMBOS QUE EXISTEM ENTRE O CAIS E A ÁGUA DO RIO

— Seu José, mestre carpina,

que habita este lamaçal,
sabes me dizer se o rio
a esta altura dá vau?
sabe me dizer se é funda
esta água grossa e carnal?
— Severino, retirante,
jamais o cruzei a nado;
quando a maré está cheia
vejo passar muitos barcos,
barcaças, alvarengas,
muitas de grande calado.
— Seu José, mestre carpina,
para cobrir corpo de homem
não é preciso muita água:
basta que chega ao abdome,
basta que tenha fundura
igual à de sua fome.
— Severino, retirante,
pois não sei o que lhe conte;
sempre que cruzo este rio
costumo tomar a ponte;
quanto ao vazio do estômago,
se cruza quando se come.
— Seu José, mestre carpina,
e quando ponte não há?
quando os vazios da fome
não se tem com que cruzar?
quando esses rios sem água
são grandes braços de mar?
— Severino, retirante,
o meu amigo é bem moço;
sei que a miséria é mar largo,
não é como qualquer poço:
mas sei que para cruzá-la
vale bem qualquer esforço.
[...]
— Seu José, mestre carpina,
e que interesse, me diga,
há nessa vida a retalho
que é cada dia adquirida?
espera poder um dia
comprá-la em grandes partidas?
— Severino, retirante,
não sei bem o que lhe diga:
não é que espere comprar
em grosso tais partidas,
mas o que compro a retalho
é, de qualquer forma, vida.
— Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?

UMA MULHER, DA PORTA DE ONDE SAIU O HOMEM, ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ

— Compadre José, compadre,

que na relva estais deitado:
conversais e não sabeis
que vosso filho é chegado?
Estais aí conversando
em vossa prosa entretida:
não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dento da vida
ao dar o primeiro grito;
e estais aí conversando;
pois sabei que ele é nascido.

O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUE ESTEVE DE FORA, SEM TOMAR PARTE EM NADA

— Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.*

João Cabral de Melo Neto
In: Morte e Vida Severina e Outros Poemas para Vozes


*Grifo meu.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Por um Natal sem aves industrializadas – Salmão ao molho de maracujá


Quem, na Ceia de Natal, opta por não comer peru, chester e outras comidas a sabor de plástico, não precisa ficar a ver navios e comer somente a salada. Eu abri meu caderninho de receitas e encontrei uma sugestão para agora ou qualquer época do ano: salmão ao molho de maracujá. 

A receita é simples, acessível, aromática e tem sabor exótico. Uma saladinha de folhas, arroz e um bom vinho complementam o paladar. (E com vinho tudo fica mais gostoso, tudo!)

. 2 filés (altos) de salmão . 2 colheres (sopa) de azeite . Sal e pimenta-do-reino branca a gosto . 2 ramos de alecrim.
Para o molho – Polpa de 1 maracujá . Sal e pimenta-do-reino branca a gosto . 1 xícara (chá) de água . 1 colher (chá) de amido de milho.

Tempere o salmão com o azeite, sal e pimenta. Envolva os filés em dois papelotes de papel-alumínio, coloque um ramo de alecrim sobre cada filé e feche o papel como um envelope. Arrume em uma fôrma e leve ao forno médio, pré aquecido, por 20 minutos.
Para o molho, separe algumas sementes da polpa do maracujá para decorar e bata o restante das sementes com a polpa, sal, pimenta e a água no liquidificador. Coe e transfira para uma panela. Junte o amido de milho e leve ao fogo médio, mexendo até engrossar, depois adicione as sementes reservadas. Retire o peixe do forno, abra o papel, retire o alecrim e regue com o molho. (Serve duas pessoas)

Dê o seu toque final, sinta o aroma e se delicie.

E Feliz Natal, sem peru e afins! 

Imagem: Web

domingo, 19 de dezembro de 2010

A Perfeição


"O que me tranquiliza é que tudo o que existe, existe com uma exatidão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. Apesar da verdade ser exata e clara em si própria, quando chega até nós se torna vaga pois é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição."

Clarice Lispector
In: Aprendendo a Viver

Imagem: Web

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Minha vida de acordo com Chico Buarque

Esta é uma brincadeira que está rolando no Facebook, mas achei melhor fazê-la aqui. O desafio é preencher um questionário usando títulos ou trechos de canções de um cantor ou banda preferido. Eu pedi licença poética a Chico Buarque e falei um pouquinho da minha vida. Deu um pouquinho de trabalho, mas foi divertido fazer. 

Você é homem ou mulher?
“Eu sou tão menina... Eu sou Colombina”

Descreva-me:
“...nos seus olhos tristes, guarda tanto amor, o amor que já não existe”

Como você se sente?
“Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”

Descreve o local onde você vive atualmente:
“São casas simples com cadeiras na calçada e na fachada escrito em cima que é um lar”

Se você pudesse ir a qualquer lugar, onde você iria?
“Tanto mar, tanto mar... Sei, também quanto é preciso navegar, navegar...”

Sua forma de transporte preferido:
“Esperando, esperando, esperando o sol, esperando o trem”

Seu melhor amigo?
“Quem te viu quem te vê. Quem não a conhece não pode mais ver pra crer”

Você e seus amigos. Como são?
“É fora, é fora, é fora da lei, é fora do ar”

Qual é o clima?
“Parece Dezembro de um ano dourado”

Hora do dia favorita:
“Já é madrugada. Acorda... Acorda... acorda”

Se sua vida fosse um programa de TV, como seria chamado?
“A Banda”

O que é a vida para você?
“Decepar a cana, recolher a garapa da cana, roubar da cana a doçura do mel. Se lambuzar de mel”

Seu relacionamento:
“Geme de preguiça e de torpor... Mata-me de rir, fala-me de amor”

Qual é o melhor conselho que você tem a dar?
“Vai, meu irmão. Pega esse avião, você tem razão de correr assim... mas beija, antes que um aventureiro lance mão”

Pensamento do dia:
“Deixa a tristeza pra lá, vem comer, me jantar. Saparatel, caruru, tucupi, tacacá. Vê se me usa, me abusa, lambuza. Que a tua cafuza não pode esperar”

Seu medo:
“Se tu falas muitas palavras sutis, se gostas de senhas sussurros ardis. A lei tem ouvidos pra te delatar nas pedras do teu próprio lar”

Meu lema:
“Não chore ainda não, que eu tenho um violão e nós vamos cantar”

Salve, Chico!!!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Ao velho Lua


Ontem foi o aniversário do grande Rei do Baião – Luiz Gonzaga – e também dia em que se comemora o Dia do Forró.

Por falta de tempo não pude deixar minha singela homenagem e demonstrar todo o meu respeito a esse que - com sua sanfona - foi um dos maiores arautos da cultura nordestina. É a ele que devo grande parte do orgulho que sinto por ser desta terra de beleza agreste, cores fortes e raízes profundas.

Em tempo, deixo a canção “Tropeiros da Borborema”, composta por Raimundo Asfora e Rosil Cavalcante, belamente musicada pelo velho Lua e que agracia um pedaço da história da minha querida cidade – Campina Grande.

Toca, Gonzagão!

"Tropeiros da Boborema"

domingo, 12 de dezembro de 2010

Dois vocativos


A maravilha dá de três cores:
branca, lilás e amarela,
seu outro nome é bonina.
Eu sou de três jeitos:
alegre, triste e mofina,
meu outro nome eu não sei.
Ó mistério profundo!
Ó amor!

Adélia Prado
In: O Coração Disparado - 1978

Imagem: Web

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Meu Natal Kitsch e minha gatinha Grinch

Quando chega essa época sempre surgem aqueles que dizem não gostar do Natal e tudo que vem com ele. Seja por questão religiosa, estética ou por puro prazer de ser do contra. Às vezes gosto de ser do contra, mas nesse caso eu vou com a maioria.

À parte o consumismo louco comum desta época, eu adoro enfeitar a casa com todos os balangandãs kitsch criados para as festas de fim de ano. E daí se é kitsch? As alegorias do Carnaval são kitsch, as bandeirolas de São João também são. E eu gosto dessas festas é mesmo por isso. Óbvio que seria no mínimo surreal se em pleno Nordeste brasileiro eu montasse um pinheiro com neve artificial, mas o bom senso também serve para essas coisas.

Guirlandas, luzinhas, árvores, presépios... Tenho tudo e monto eu mesma um por um. É uma alegria só - volto a ser criança. Mas como nem tudo são rosas, ou eu diria, nem tudo são enfeites natalinos, este ano tenho em casa uma linda e louca gatinha chamada Ritinha.

A mocinha acompanhou toda a arrumação da árvore de Natal com aquela calma zen que todo gato tem. Até pensei: ela vai ficar quietinha. Mas qual não foi minha surpresa, quando no dia seguinte descobri a árvore em frangalhos. Bolinhas soltas pelo chão, lacinhos desfeitos, estrelinhas nos ares.

Não pude sentir raiva, afinal, mãe de gato sabe que esses meninos são assim mesmo. Talvez ela seja um grinch e não acredita no espírito de Natal. Ou é apenas uma menina brincalhona que sabe se divertir com coisas simples.

A solução foi desmontar o playground de Ritinha e esse será um Natal sem árvore. 





Imagens:Web

domingo, 5 de dezembro de 2010

Ciranda da Bailarina

Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Berruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem

Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida
Ela não tem

Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina
Ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem

Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem

O padre também
Pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina
Reparando bem, todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem

Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família
Quem não tem

Procurando bem
Todo mundo tem...

Ciranda da Bailarina - Adriana Partimpim
Composição - Chico Buarque e Edu Lobo
Imagem: Web

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A Evolução Silenciosa

Sempre há um modo de conservarmos a nossa casa comum – o planeta Terra. E é com sua arte que o escultor inglês Jason deCaires Taylor vem realizando um trabalho que, em minha opinião, é no mínimo inusitado, porém extremamente estético e útil ao meio ambiente.


A instalação intitulada de “A Evolução Silenciosa” é um conjunto gigantesco de estátuas em cimento, inspiradas em pessoas comuns e do seu próprio convívio. Elas estão sendo colocadas no fundo do mar, por enquanto somente em Cancún, e a ideia é que elas possam servir de abrigo para os corais, além de outras vidas marinhas, que estão ameaçadas por conta dos danos ambientais que os mares vêm sofrendo nos últimos tempos. 


O efeito de cores e texturas que os corais darão a este museu submarino está fora do controle do escultor mas, com certeza, será um espetáculo bonito de se ver.


Para ver outras imagens e saber mais sobre o projeto clique aqui.

E para ler entrevista com deCaires clique aqui.