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domingo, 21 de agosto de 2011

Da Solidão


"Há muitas pessoas que sofrem do mal da solidão. Basta que em redor delas se arme o silêncio, que não se manifeste aos seus olhos nenhuma presença humana, para que delas se apodere imensa angústia: como se o peso do céu desabasse sobre sua cabeça, como se dos horizontes se levantasse o anúncio do fim do mundo.

No entanto, haverá na terra verdadeira solidão? Não estamos todos cercados por inúmeros objetos, por infinitas formas da Natureza e o nosso mundo particular não está cheio de lembranças, de sonhos, de raciocínios, de idéias, que impedem uma total solidão?

Tudo é vivo e tudo fala, em redor de nós, embora com vida e voz que não são humanas, mas que podemos aprender a escutar, porque muitas vezes essa linguagem secreta ajuda a esclarecer o nosso próprio mistério. Como aquele Sultão Mamude, que entendia a fala dos pássaros, podemos aplicar toda a nossa sensibilidade a esse aparente vazio de solidão: e pouco a pouco nos sentiremos enriquecidos.

Pintores e fotógrafos andam em volta dos objetos à procura de ângulos, jogos de luz, eloquência de formas, para revelarem aquilo que lhes parece não só o mais estático dos seus aspectos, mas também o mais comunicável, o mais rico de sugestões, o mais capaz de transmitir aquilo que excede os limites físicos desses objetos, constituindo, de certo modo, seu espírito e sua alma.

Façamo-nos também desse modo videntes: olhemos devagar para a cor das paredes, o desenho das cadeiras, a transparência das vidraças, os dóceis panos tecidos sem maiores pretensões. Não procuremos neles a beleza que arrebata logo o olhar, o equilíbrio de linhas, a graça das proporções: muitas vezes seu aspecto - como o das criaturas humanas - é inábil e desajeitado. Mas não é isso que procuramos, apenas: é o seu sentido íntimo que tentamos discernir. Amemos nessas humildes coisas a carga de experiências que representam, e a repercussão, nelas sensível, de tanto trabalho humano, por infindáveis séculos.

Amemos o que sentimos de nós mesmos, nessas variadas coisas, já que, por egoístas que somos, não sabemos amar senão aquilo em que nos encontramos. Amemos o antigo encantamento dos nossos olhos infantis, quando começavam a descobrir o mundo: as nervuras das madeiras, com seus caminhos de bosques e ondas e horizontes; o desenho dos azulejos; o esmalte das louças; os tranquilos, metódicos telhados... Amemos o rumor da água que corre, os sons das máquinas, a inquieta voz dos animais, que desejaríamos traduzir.

Tudo palpita em redor de nós, e é como um dever de amor aplicarmos o ouvido, a vista, o coração a essa infinidade de formas naturais ou artificiais que encerram seu segredo, suas memórias, suas silenciosas experiências. A rosa que se despede de si mesma, o espelho onde pousa o nosso rosto, a fronha por onde se desenham os sonhos de quem dorme, tudo, tudo é um mundo com passado, presente, futuro, pelo qual transitamos atentos ou distraídos. Mundo delicado, que não se impõe com violência: que aceita a nossa frivolidade ou o nosso respeito; que espera que o descubramos, sem anunciar nem pretender prevalecer; que pode ficar para sempre ignorado, sem que por isso deixe de existir; que não faz da sua presença um anúncio exigente " Estou aqui! estou aqui! ". Mas, concentrado em sua essência, só se revela quando os nossos sentidos estão aptos para descobrirem. E que em silêncio nos oferece sua múltipla companhia, generosa e invisível.

Oh! se vos queixais de solidão humana, prestai atenção, em redor de vós, a essa prestigiosa presença, a essa copiosa linguagem que de tudo transborda, e que conversará convosco interminavelmente."

Cecília Meireles
In: Janela Mágica - 1981

7 comentários:

  1. Nada mais verdadeiro: é o sentido intimo que temos na relação com as coisas que faz palpitar de amor e beleza a nossa vida, o sermos jogados, o vivermos e abrirmo-nos ao mundo. Ainda que ames no meio de muitos, no meio daqueles que mais amas e queres, tu floresces e cresces de dentro e só de ti há o amor para tudo o que há, para tudo o que é.

    Beijo

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  2. ... e a esse acontecimento chama-se Alma.. ;)

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  3. Eu ando sempre muito bem acompanhada pois estou sempre comigo. Parece simplório mas é a minha verdade e a cada dia vejo o quanto ela se estabelece.

    Um beijo, flor.

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  4. Oi!!
    as vezes eu procuro um pouco de solidão, mas meus pensamentos e sonhos não me deixam só...
    Saudades

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  5. Cristiane Vieira22/08/2011 11:32

    Que delicadeza! Esse texto é lindo. Vou procurar lembrar dele sempre que precisar.

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  6. Oi Margot!

    Mesmo sabendo que a solidão não deveria tomar conta da mente humana, é justamente por sermos humanos que sentimos a solidão, assim como a tristeza e as angústias.

    Porém, a Cecília Meireles tem razão, mesmo sozinhos estamos acompanhados. O duro é lembrar disso e acreditar num momento solitário.

    Bjs

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  7. Um aforismo do Carlos Drummond de Andrade resume bem este precioso texto da Cecília Meireles:

    "A Solidão gera inúmeros companheiros em nós mesmos."

    Um abraço a todos!

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