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domingo, 20 de novembro de 2011

O homem das rosas



Porque todos os dias temos diversas razões para descrer e mesmo desistir do ser humano, e porque a gente sabe que se descrer ou desistir de vez dos nossos semelhantes aí é que a vida perderá mesmo o sentido, por causa disto é que torno público o que uma amiga minha e leitora dessas crônicas, lá nos Estados Unidos, me narrou. Ela é uma médica brasileira que há mais de vinte anos vive em Iowa, um estado no meio-oeste norte-americano no qual, por coincidência, também vivi. Portanto, quando Monica Hanson me escreveu o que aqui vou cronicando, fui-me sentindo na paisagem interiorana daquele estado cheio de fazendas de milho e vi alguns bons sentimentos florescerem em mim.

É que os jornais lá publicaram um fato real revelando o lindo, simples e raro segredo de um cidadão que acabara de morrer. Todo dia, a toda hora está morrendo gente. E nem por isto suas vidas vão para os jornais. Todos nós guardamos segredos. Alguns são egoístas e inconfessáveis. Mas aquele homem tinha um segredo. Ele era “o homem das rosas”.

E ela é quem conta: “Quando ele andava nos lugares (barbearia, igreja, restaurante, supermercado) e escutava histórias de alguém que estava passando uma hora difícil, por doença, perda de alguém, de emprego, etc., etc., anonimamente, ele enviava uma rosa para a pessoa. Ao morrer, havia enviado, se não me falha a memória, seis mil rosas! E tinha um pacto com a florista da cidade para ela não divulgar o seu nome, um segredo que ela guardou (não é um tesouro isso??) até que a mulher do homem resolveu contar a história no dia do seu enterro. A última rosa que ele enviou foi para a sua mulher. Disse que para ela reservava a rosa mais bela! Não é de arrepiar?”

Sim, e também de se invejar.

Isto posto, ela ainda acrescenta que na cidade de Iowa há um outro indivíduo anônimo que todo ano decora três pinheiros que ficam à margem de uma estrada conhecida. Em pleno Natal, de repente, há aquela manifestação de luzes em meio à neve. E para incentivar gestos parecidos o jornal da cidade tem um espaço para noticiar coisas que pessoas fazem espontaneamente em favor de outros e da comunidade.

Quer dizer, nem tudo está perdido.

Sei que as pessoas andam muito assustadas e não interferem para socorrer o outro nem quando este foi assaltado ou atropelado. É como se todos já estivéssemos também tão atropelados e assaltados que não agüentássemos ver ou socorrer vítimas.

Mas enquanto houver uma pessoa que mande, desinteressadamente e anonimamente, uma rosa para alguém que dela necessite ou a mereça, ainda haverá esperança de que nem tudo secou em nós.

Sei que alguém pode resmungar, “mas que coisa mais piegas!”. Talvez seja. Mas também é verdade que a aspereza de nossas vidas fez com que embotássemos os sentidos, que tivéssemos vergonha de nossos sentimentos e emoções. E, no entanto, oferecer uma rosa seria tão simples. Tão simples e urgentemente necessário.

Affonso Romano de Sant'Anna
In: Tempo de Delicadeza

Imagem: Web

7 comentários:

  1. Ora, piegas.

    Eu sou com orgulho!

    Mande + !

    Beijo.

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  2. Que legal essa história! E eu que sonhei com rosas a noite toda...vai ver era um presente da minha alma pra minha consciência! (vou pro dicionário dos sonhos agorinha mesmo). E é bem verdade que fui dormir com um resmungo interno embotado! Tudo respondido!
    Bj

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  3. Que lindo o gesto desse homem. São histórias como essa que precisamos escutar todo dia. Imagina se houvessem jornais que só publicassem esse tipo de história em suas páginas? Acho que a gte passaria a ter mais fé no ser humano.
    Bjo Margô!

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  4. Meu comentário fica aqui registrado em lagriminhas.

    Delicadeza deveria estar sempre no ar, sendo respirada, elaborada e expelida pelas pessoas.

    É...eu sou uma sonhadora.

    Um beijo, querida Margot.

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  5. Às vezes alguém só precisa de um sorriso, de um bom dia, de um minuto de atenção. A gente não perde nada com pequenas gentilezas e atitudes. Quanto custa uma palavra de incentivo?Nós estamos acostumados mesmo é com essa tragédia ensanguentada do dia a dia e, infelizmente, com o medo de ser gentil e parecer bobo.

    Um beijo!

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  6. Margot, é para arrepiar, invejar, chorar, copiar, ... O mundo anda tão inchado com a indiferença e maldade do ser humano, que quando vemos uma coisa como essa, custamos a acreditar que seja possível. Ainda bem que há estes pequenos anjos trajados de homens. O mundo tem sim conserto! De grão em grão, o mar é rodeado por caminhões de areia. Beijos.

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  7. Simbolicamente, ofereço uma rosa a cada um de vocês.

    Um abraço a todos! =)

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