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domingo, 30 de janeiro de 2011

Os gatos e as flores


"Os gatos, como as flores, me cativam, e meu olhar ecológico se compraz em admirá-los como documentos de uma era ameaçada de extinção. A flor abria-se em esplendor, o bichano fechava-se em serenidade, e as duas coisas eram gratas a este espírito antiquado."

Carlos Drummond de Andrade
Trecho da crônica "Inexplicável interesse em torno de um cidadão qualquer".
In: De notícias e não notícias faz-se a crônica


Imagem: Web

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Arte de Amar


Acabo de ler o livro “Arte de Amar” do poeta romano Ovídio, mas fiquei com leve amargo na boca.
 
Trata-se de um grande poema dividido em 3 livros com conselhos dirigidos para homens e mulheres, mas essencialmente aos homens, aprenderem a técnica de seduzir e, se possível, fazer perdurar o amor.
 
Compreendo que a época e a sociedade em que Ovídio viveu eram muito diferentes da nossa. Até ressalto que há passagens bem atuais – há conselhos que considero válidos. No entanto, rapidamente me apercebi que este texto não é nada favorável às mulheres. Mas não quero enveredar por assuntos feministas. Afinal, segundo dizem, em sua época Ovídio era um dos poetas mais atentos aos sentimentos e “direitos” da mulher.
 
O sabor amargo é por perceber que o amor que ali é tratado não é o amor romântico do qual estamos acostumados a lidar, da melhor ou da pior forma, nos dias atuais. Embora eu bem soubesse que o amor que hoje conhecemos é oriundo de um tempo mais recente, admito que fui incauta por pensar que ali eu encontraria alguma docilidade, apesar de haver algumas vênias que lembram, lá longe, o estilo do amor romântico.
 
A meu ver, a riqueza deste poema não reside exatamente na sua intenção de aconselhar (didática), mas na composição (estética), na frequente citação de personagens mitológicos e, sobretudo, no que podemos saber dos usos e costumes da Antiguidade.
 
E eu pergunto, existirá receita para a arte de bem-amar ou “Amar se aprende amando”?


Imagem: Idylle - William-Adolphe Bouguereau

sábado, 22 de janeiro de 2011

Pétalas

As borboletas voam sobre o meu jardim.
São cores vivas, pousam sobre às onze horas,
Nas rosas claras, violetas e jasmins.

Um beija-flor traindo a rosa amarela,
Beijou a bela margarida infiel.
Papoula e dália estão cravadas de ciúmes
E o beija-flor beijando flores a granel.

Pétalas, asas amareladas.
Pétalas, espinho seco,
Folha, flor, lagarta.
Pétalas

As flores voam e voltam noutra estação.
Só serei flor quando tu flores no verão.
Pétalas - Alceu Valença
Maracatus, Batuques e Ladeiras - 1996

Imagem: Web

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Invenção do Amor

O ser busca o outro ser, e ao conhecê-lo
acha a razão de ser, já dividido.
São dois em um: amor, sublime selo
que à vida imprime cor, graça e sentido.


"Amor" - eu disse - e floriu uma rosa
embalsamando a tarde melodiosa
no canto mais oculto do jardim,
mas seu perfume não chegou a mim.

Amor - Carlos Drummond de Andrade
In: Amar se Aprende Amando


domingo, 16 de janeiro de 2011

A maior riqueza do homem é a sua incompletude

A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.

Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,

que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.

Perdoai

Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.

Manoel de Barros
In: Retrato do artista quando coisa 

Imagem: Web

sábado, 15 de janeiro de 2011

Há 15 anos

Há 15 anos a dor parecia insuportável. E era. Uma dor que anestesiava o peito. Que embotava a alma.

Talvez a cura da dor seja a saudade. A saudade toma o espaço daquele sentimento de impotência que nos invade quando percebemos que nosso pai já não estará entre nós.

Há 15 anos meu pai disse 'Adeus' e realizou a última travessia da sua existência (nesta esfera). Faz tremenda falta sua simplicidade, seu olhar de homem sofrido, a pouca fala - o pouco falar sempre certeiro, e sobretudo a sua presença.

A dor se esvai, mas a saudade nos acompanha para sempre.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Meu silêncio e meus sentimentos


Meu silêncio e meus sentimentos aos que estão vivendo a dor de ter suas vidas varridas pela fúria da Natureza. A Natureza que também sente-se magoada e que reage à ação de todos nós que somos os responsáveis por nossa casa comum. 

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Beijo na boca, não

“Beijo na boca, não” (2003) do diretor francês Alain Resnais, realizador do aclamado “Hiroshima, mon amour” (1955), é uma comédia leve e despretenciosa, no melhor estilo vaudeville.

Confesso que não gosto de filmes musicais, considero uma tremenda maçada, mas esse me chamou atenção mais pela forma do que pelo conteúdo.

A história é contada em 3 atos, como se de uma peça de teatro se tratasse e cada ato é encenado num cenário diferente. É ambientada numa Paris dos anos 20 e seus personagens usam um belíssimo figurino à moda da época e a música é para lá de empolgante. 


Audrey Tatou, a sempre queridinha de “O fabuloso destino de Amélie Poulain”, aparece como uma melindrosa coquette e mostra que tem, também, talento para o canto.

No mais, o filme é ágil, divertido, bem conduzido e conta com atuações brilhantes.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Não me importo com as rimas


Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior.

Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,

E a minha poesia é natural como o levantar-se o vento...


Alberto Caeiro
O Guardador de Rebanhos - XIV

Foto: Miguel Pessoa Vidal - Cavalos no Gelo 2011

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Quem é o Ano Novo?


“Acorda, Margareth, vem ver o Ano Novo chegar!”

Nessa época eu era muito menina, tão menina que ainda acreditava em Papai Noel. Não lembro quantos anos eu tinha, mas recordo muito bem quando, próximo da virada do ano, a minha mãe me acordava para ver o Ano Novo chegar.

Talvez por ainda estar muito envolvida com as festas de Natal, com o bom velhinho e seus presentes, eu imaginava que o Ano Novo fosse, também, um homem (sem barba, porque ainda era novo) que traria presentinhos... ou que pelo menos tivesse a forma de gente.

No momento da virada do ano eu ficava meio sem entender, até imagino minha cara de paisagem (e de sono). Todos se abraçando, som alto, fogos de artifício barulhentos. E o Ano Novo, cadê? Somente ele não estava ali.

Mas no dia seguinte eu não deixava por menos e muito sabichona indagava à minha mãe: “Quem é o Ano Novo?” Ela não sabia que aquela dúvida era mesmo real; não era devaneio de criança. Ela não respondia... e por alguns anos eu fiquei muito na dúvida sobre quem seria o tal Ano Novo. 

Imagem: Web

sábado, 1 de janeiro de 2011

Rebento


Sabatina Poética é a nova sessão que criei para o Compartimento. Nos finais de semana, em dias alternados - sábados ou domingos (com a Escola Dominical) - postarei poemas, música ou fragmentos da minha escolha ou sugerido por outrem (sintam-se à vontade). 
A música de hoje foi postada no meu FB e compartilho também aqui, pois não vejo nenhuma outra imagem ou canção mais propícias para o dia de hoje.  
Feliz Rebento Novo!

Rebento
substantivo abstrato.
O ato, a criação, o seu momento
Como uma estrela nova e o seu barato
que só Deus sabe, lá no firmamento.
Rebento
Tudo o que nasce é Rebento
Tudo que brota, que vinga, tudo que medra.
Rebento raro como flor na terra,
rebento farto como trigo ao vento.
Outras vezes rebento simplesmente
no presente do indicativo.
Como a corrente de um cão furioso,
  como as mãos de um lavrador ativo
às vezes mesmo perigosamente
como acidente em forno radioativo.
Às vezes, só porque eu fico nervoso, eu rebento
ou necessariamente só porque estou vivo!
Rebento, a reação imediata
a cada sensação de abatimento.
  Eu rebento, o coração dizendo: Bata!
a cada bofetão do sofrimento.
Eu rebento, como um trovão dentro da mata
e a imensidão do som nesse momento.

Rebento - Gilberto Gil 


Foto: Mike Hollman