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sábado, 27 de agosto de 2011

O Gato


                                     O gato é secreto.
                                     Tece com calma o mistério do mundo.

                                     O gato é elétrico.
                                     Pura energia a percorrer a espinha.

                                     O gato é orgulho.
                                     Sem humildade, jamais se entrega.

                                     O gato é desejo.
                                     Atração pela lua e telhados.

                                     O gato é sagrado.
                                     Olho no olho que brilha.


                                     Um susto.
                                     Parece que vemos Deus.


Donizete Galvão
In: Azul Navalha - 1988

Imagem: Web

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Só Dez por Cento é Mentira



O "idioleto manuelez" - a língua dos bocós e dos idiotas - que surrupiei do documentário "Só Dez por Cento é Mentira" (2010), realizado por Pedro Cezar, sobre vida e obra do "vagabundo profissional" - Manoel de Barros.
Entrevistas com o próprio poeta. Depoimentos de amigos e leitores. Fotografia bem cuidada e música belíssima. Um primor de produção.


domingo, 21 de agosto de 2011

Da Solidão


"Há muitas pessoas que sofrem do mal da solidão. Basta que em redor delas se arme o silêncio, que não se manifeste aos seus olhos nenhuma presença humana, para que delas se apodere imensa angústia: como se o peso do céu desabasse sobre sua cabeça, como se dos horizontes se levantasse o anúncio do fim do mundo.

No entanto, haverá na terra verdadeira solidão? Não estamos todos cercados por inúmeros objetos, por infinitas formas da Natureza e o nosso mundo particular não está cheio de lembranças, de sonhos, de raciocínios, de idéias, que impedem uma total solidão?

Tudo é vivo e tudo fala, em redor de nós, embora com vida e voz que não são humanas, mas que podemos aprender a escutar, porque muitas vezes essa linguagem secreta ajuda a esclarecer o nosso próprio mistério. Como aquele Sultão Mamude, que entendia a fala dos pássaros, podemos aplicar toda a nossa sensibilidade a esse aparente vazio de solidão: e pouco a pouco nos sentiremos enriquecidos.

Pintores e fotógrafos andam em volta dos objetos à procura de ângulos, jogos de luz, eloquência de formas, para revelarem aquilo que lhes parece não só o mais estático dos seus aspectos, mas também o mais comunicável, o mais rico de sugestões, o mais capaz de transmitir aquilo que excede os limites físicos desses objetos, constituindo, de certo modo, seu espírito e sua alma.

Façamo-nos também desse modo videntes: olhemos devagar para a cor das paredes, o desenho das cadeiras, a transparência das vidraças, os dóceis panos tecidos sem maiores pretensões. Não procuremos neles a beleza que arrebata logo o olhar, o equilíbrio de linhas, a graça das proporções: muitas vezes seu aspecto - como o das criaturas humanas - é inábil e desajeitado. Mas não é isso que procuramos, apenas: é o seu sentido íntimo que tentamos discernir. Amemos nessas humildes coisas a carga de experiências que representam, e a repercussão, nelas sensível, de tanto trabalho humano, por infindáveis séculos.

Amemos o que sentimos de nós mesmos, nessas variadas coisas, já que, por egoístas que somos, não sabemos amar senão aquilo em que nos encontramos. Amemos o antigo encantamento dos nossos olhos infantis, quando começavam a descobrir o mundo: as nervuras das madeiras, com seus caminhos de bosques e ondas e horizontes; o desenho dos azulejos; o esmalte das louças; os tranquilos, metódicos telhados... Amemos o rumor da água que corre, os sons das máquinas, a inquieta voz dos animais, que desejaríamos traduzir.

Tudo palpita em redor de nós, e é como um dever de amor aplicarmos o ouvido, a vista, o coração a essa infinidade de formas naturais ou artificiais que encerram seu segredo, suas memórias, suas silenciosas experiências. A rosa que se despede de si mesma, o espelho onde pousa o nosso rosto, a fronha por onde se desenham os sonhos de quem dorme, tudo, tudo é um mundo com passado, presente, futuro, pelo qual transitamos atentos ou distraídos. Mundo delicado, que não se impõe com violência: que aceita a nossa frivolidade ou o nosso respeito; que espera que o descubramos, sem anunciar nem pretender prevalecer; que pode ficar para sempre ignorado, sem que por isso deixe de existir; que não faz da sua presença um anúncio exigente " Estou aqui! estou aqui! ". Mas, concentrado em sua essência, só se revela quando os nossos sentidos estão aptos para descobrirem. E que em silêncio nos oferece sua múltipla companhia, generosa e invisível.

Oh! se vos queixais de solidão humana, prestai atenção, em redor de vós, a essa prestigiosa presença, a essa copiosa linguagem que de tudo transborda, e que conversará convosco interminavelmente."

Cecília Meireles
In: Janela Mágica - 1981

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Aos que desenham com sombra e luz


"Fotografar é colocar na mesma linha de mira, a cabeça, o olho e o coração."
 Henri Cartier Bresson

Talvez fotografar seja a tentativa de mirar o mundo com olhos de criança!

  A todos os fotógrafos, profissionais e amadores, desejo um lindo dia - de luz e sombras - propício para belíssimas fotografias. Feliz dia!


Imagem: Web

terça-feira, 16 de agosto de 2011

"Meia-Noite em Paris" e meus devaneios...


Há quem diga que os filmes de Woody Allen são sempre mais do mesmo, e se assim for eu vou continuar gostando na mesma.

Meia-Noite em Paris (2011) é mais um dos seus filmes que aborda conflitos entre casais, dúvidas, situações cômicas e patéticas, corações partidos, personagens desvairados, uma boa dose de ironia e alguma melancolia.

Não é a primeira vez que W. Allen traz as artes e a literatura para suas histórias – essa é outra das suas fórmulas infalíveis. Porém, neste filme há um encantamento especial, pois tudo acontece na Cidade Luz – na mítica Paris.

E não foi somente isso que fez meus olhos brilharem. O delicioso foi mergulhar junto com Gil, o protagonista, numa viagem no tempo até os agitados anos 20 do século XX e conviver com escritores, pintores e músicos que marcaram uma geração e que até hoje nos influenciam com suas artes.


Acompanhei o périplo de Gil também traçando meu próprio roteiro lítero-cultural e boêmio: como seria fantástico se eu pudesse puxar a alavanca do tempo e regressar aos anos 50 e, pelas alamedas do Rio de Janeiro (outra cidade mítica), encontrar meus ídolos Carlos Drummond de Andrade, João Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Tom Jobim, etc e com eles trocar um dedinho de prosa. 

Os devaneios de Gil também são os meus e acredito que também são de todos os apaixonados pela literatura e pelas artes.

E você, para que época voltaria?

sábado, 13 de agosto de 2011

Delicadeza


A alma é invisível,
Um anjo é invisível,
O vento é invisível,
E, no entanto,
Com delicadeza,
Se pode enxergar a alma,
Se pode adivinhar o anjo,
Se pode sentir o vento,
Pode-se mudar o mundo com alguns pensamentos...


Roseana Murray
In: O Manual da delicadeza - de A a Z (2001)

Para meu Arcanjo

Imagem: Web

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Ver um Mundo num Grão de Areia


Fotografias em grande plano (macro) sempre mostram cortes e detalhes que um olhar distraído pode não alcançar. E não é raro passarmos por cima de coisas pequenas que são plenas de riqueza ou joias em potencial.

O cientista e fotógrafo, Dr. Gary Greenberg, com um olhar clínico e um microscópio especial, que amplia imagens em até 300 vezes, revela um verdadeiro macro-cosmo - infinitos mundos inusitados em minúsculos grãos de areia.


Ao ver essas imagens, eu senti que sou tão grande e ao mesmo tempo tão pequena, tão forte e tão fraca. E me invadiu a certeza do que já sabemos - que não é preciso mirar grandes paisagens para ver um mundo de beleza.

"Ver o Mundo num grão de areia
e um Céu numa flor silvestre,
ter o Infinito na palma da sua mão
e a Eternidade numa hora."

William Blake

Fonte: Folha.com

domingo, 7 de agosto de 2011

Não Há no Mundo Paz Verdadeira

"-Você tem paz, Clarice?
-Nem pai nem mãe.
-Eu disse "paz".
-Que estranho, pensei que tivesse dito "pais". Estava pensando em minha mãe alguns segundos antes. Pensei - mamãe - e então não ouvi mais nada. Paz? Quem é que tem?"

Clarice Lispector entrevistada por Marisa Raja Gabaglia - 1973

apud: Benjamin Moser
In: Clarice,. - 2009




  Nulla in Mundo Pax Sincera - Antonio Vivaldi


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Minhas tardes com Margueritte

Quem gosta de ler deve lembrar qual a pessoa que o conduziu ao caminho dos livros e da leitura. Alguns têm essa experiência ainda na infância, outros somente na fase adulta. Às vezes, a descoberta tardia tem um gosto especial, como retrata o belíssimo filme de Jean Becker - Minhas tardes com Margueritte (2011)


Num pequeno vilarejo da França, Germain Chazes, um rude vendedor de hortaliças passava suas tardes livres num café, a jogar conversa fora com amigos ou numa praça a dar milho ao pombos. Foi numa dessas tardes ociosas, junto aos pombos, que Germain conheceu a solitária Margueritte - uma graciosa senhora de idade que rapidamente o abordou para uma conversa.

 Logo Margueritte descobriu que Germain não sabia ler com fluência, contudo possuía uma percepção muito sensível da vida. A partir dali, todas as tardes, Margueritte levava um livro e lia alguns capítulos em voz alta. Depois oferecia para que ele o lesse sozinho. A princípio, por timidez ou insegurança, Germain se recusava a fazer as leituras, mas aos poucos sentiu-se atraído pelos livros e pela descoberta que aqueles textos traziam para seu dia-a-dia. Com a leitura, e o emaranhado de novas palavras, Germain aprendeu a ver o mundo com outros olhos e a sensibilidade que estava bem guardade dentro de si começou a aflorar.


Além dos livros, Margueritte ofereceu a amizade e o carinho que um homem, embrutecido pelas circunstâncias da vida, merece para renascer e tornar-se um ser autoconfiante e feliz. E Germain retribuiu essa amizade com sua companhia simples, porém fiel.


É um filme despretensioso e poético. Terminei de vê-lo com os olhos rasos d'água e um desejo enorme de que haja muitas Marguerittes conduzindo Germains para os caminhos da boa leitura.


Veja o trailer aqui