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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Shhh! Silêncio, por favor!

Ontem estive a tarde inteira sozinha em casa e tive um susto. De repente - sem aviso - eu senti o silêncio. Ouvi o silêncio.

Uma qualidade de silêncio que só recordo de ter sentido, na minha infância, em casa da minha avó, num lugar que não havia luz elétrica e assim, as caixinhas de fazer barulho - televisão, rádio, computadores - não faziam parte daquele ambiente. Por isso eu digo que a qualidade do silêncio era outra. Para mim, aquilo era silêncio puro. Ouvir o cacarejo de uma galinha, o chocalho da vaquinha a pastar, o rápido rastejar de uma lagartixa fugindo do gato, a manga que caía sobre as folhas secas no chão, o grito de um menino ao longe. Barulhinhos naturais que compunham um silêncio precioso. Hoje isso tudo é tão raro.

O silêncio de ontem me arremessou a essas memórias. O tempo havia parado, nada (ou tudo) acontecia lá fora. Nenhum barulho artificial se infiltrou mais que um minuto naquela calma. E pude ouvir com imensa nitidez o pio de um pássaro. O vento coreografando a dança das árvores e outras plantas. Os gatos ressonando. A água fervendo para o café. O aroma do café. O correr dos meus dedos passando a página de um livro. Os meus pensamentos.

Não sei quanto durou esse momento taciturno, mas sei que foi suficiente para eu constatar que estou vivendo dias acelerados, passando por horas que voam e não percebo, falando coisas desnecessárias, ferindo pessoas que amo, olhando ao meu redor sem pousar os olhos com o devido cuidado e me sentindo ferida por estes atropelos. 

Mas eu sei que o silêncio das coisas, o silêncio das pessoas - o Silêncio - só é sentido em momentos de suavidade e desapego. Por isso vou passar uns dias guardada em meu silêncio e refletir com calma sobre minhas atitudes (às vezes descuidadas e às vezes impertinentes, incoerentes ou equivocadas). Não estou mal, não estou doente - é tão somente um passeio, uma pequena viagem por dentro de mim, mas volto logo. 




"Se queres ouvir a Deus, presta bem atenção: Ele gosta de falar muito baixo"
Vladimir Ghika

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

As flores de Séraphine de Selins


Para não dizer que não falei das flores... e das folhas, trago - para celebrar a chegada da estação mais colorida do ano - a arte naïf da pintora francesa - Séraphine de Selins (1864/1942).


Para mim, Séraphine de Selins era desconhecida até quando eu vi o filme "Séraphine" (2008), do realizador Martin Provost. Tive uma feliz surpresa, pois o filme que fala de uma artista, não se basta nisto, é também um trabalho de arte com fotografia apurada, roteiro que cativa e atuações brilhantes - destacando a Yolande Moreau (Séraphine).

Séraphine era uma mulher simples, que andava com pés descalços, abraçava árvores, banhava-se nos rios semi-nua - amava a natureza. No vilarejo onde vivia era vista como uma louca. Até o dia em que foi trabalhar, fazendo faxinas, na casa do marchand e crítico de arte Wilhelm Uhde, e este encontrou em seus pertences um pequeno quadro que Séraphine havia pintado com tintas e pincéis que ela mesma confeccionava. Logo Wilhem percebeu o talento daquela mulher silenciosa, mas também vibrante, e passou a incentivar sua arte e vender seus quadros. Mas sua carreira, que começou tarde, também terminou rápido, pois após sua primeira exposição - que foi um grande sucesso - Wilhem deixou de comprar seus quadros, devido aos conflitos causados pela 1ª Guerra Mundial. Com isso, a loucura de Séraphine se agravou e ficando internada numa clínica psiquiátrica onde esteve até o dia de sua morte.

Os quadros de Séraphine de Selins representam exuberantes bouquets de flores com folhas que se sobressaem como se pudéssemos tocá-las por parecer que são vivas e pulsantes. E são com essas flores que pretendo iniciar minha Primavera!

Uma linda Primavera a todos!

A quem interessar, o trailer do filme> aqui!












domingo, 18 de setembro de 2011

Um pombo, cem escudos e um livro

"Quando chegaram a casa, Adelaide teve de abrir os dedos um a um. Cada dedo retomava a sua forma, renascia. Depois, com delicadeza, desdobrou o pequeno papel, estava humedecido pelo suor da palma da mão. Com caligrafia perfeita:



Ilídio. Ela temia o que desejava. Tentou distinguir um cheiro por baixo do suor que repassava o papel. O amor, ela sempre sonhara com essa palavra, essa ideia. Agora podia começar a vivê-la. Escondeu o papel no louceiro."

José Luís Peixoto
In: Livro - 2010



quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Qual é mesmo o dia do Frevo?

Acho curioso que hoje, dia 14/09, seja comemorado o dia do Frevo. Mas ainda fico na dúvida sobre a data oficial, pois como o próprio título do DVD do eterno brincante - Antonio Nóbrega  - indica, o dia do frevo é em 9 de Fevereiro, aliás... de Frevereiro.


Sendo cá em Setembro ou sendo lá em Fevereiro, para mim é sempre instigante apreciar um frevo bem tocando e divinamente bem dançado. Por isso:

♪♫Vinde Vinde
Moços e Velhos
Vinde todos, apreciar.
Como isso é bom
Como isso é belo
Como isso é bom
É bom demais!

Olhai, olhai admirai
Como isso é bom
É bom demais!♪♫


 
 
  O vídeo veio daqui > Egrégora: Carrancas Literárias

sábado, 10 de setembro de 2011

Invitation au voyage


                Se cada um de nós, ó vós outros da televisão
                - vós que viajais inertes
                como defuntos num caixão - 
                se cada um de vós abrisse um livro de poemas...
                faria uma verdadeira viagem...
                Num livro de poemas se descobre de tudo, de tudo mesmo!
                - Inclusive o amor e outras novidades.

Mario Quintana
In: Baú de Espantos - 1986

Imagem: Web

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Tippi - a garota que comunga com a Natureza


Quando recebi essas imagens, via mail, passei uns bons minutos em silêncio. Talvez com a vontade de participar com essa menina de sua franca comunhão com a Natureza. Depois vi que suas fotos circulam na net há alguns anos, mas eu não conhecia e certamente muitos também não viram.

A garota chama-se Tippi Degre, filha de franceses, nasceu na Africa em 1990, lugar onde seus pais escolheram para viver e trabalhar como fotógrafos da vida selvagem.




Tippi foi criada entre a fauna e a flora Africana em seu mais puro esplendor e, em sua infância, teve os animais selvagens como amigos íntimos e os nativos como professores. Hoje, aos 21 anos, Tippi vive na França, estuda cinema, mas ainda vive em harmonia com a Natureza Selvagem! 





"Se o meu mundo não fosse humano, também haveria lugar para mim: eu seria uma mancha difusa de instintos, doçuras e ferocidades, uma trêmula irradiação de paz e luta: se o mundo não fosse humano eu me arranjaria sendo um bicho. Por um instante então desprezo o lado humano da vida e experimento a silenciosa alma da vida animal. É bom, é verdadeiro, ela é a semente do que depois se torna humano."

Clarice Lispector
In: Aprendendo a Viver

Cristiane Vieira, esse post é para você.
Obrigada pela partilha das imagens e pelo Amor que você emana pelos Animais!


Olhar a lindeza dessas fotos me fez refletir sobre as coisas pequenas da vida e como eu quero isso para mim.

Mais informações sobre a Tippi > aqui!


domingo, 4 de setembro de 2011

A Roupa & A Palavra


“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes.

Depois enxáguem, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota.

Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”

Graciliano Ramos
em entrevista - 1948

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Boi de Haxixe

Repostando... porque convém.


Quando piso em flores,
Flores de todas as cores.
Vermelho sangue,verde-oliva, azul celestial
Me dá vontade de voar sobre o planeta
Sem ter medo da careta
Na cara do temporal.

Desembainho a minha espada cintilante
Cravejada de brilhantes
Peixe-espada vou pro mar.
O amor me veste com o terno da beleza
E o saloon da natureza
Abre as portas pra eu dançar.

Diz o que tu quer, eu dou.
Se tu quer que eu vá, eu vou.

Meu bem, meu bem-me-quer,
Te dou meu pé meu não
Um céu cheio de estrelas
Feitas com caneta bic num papel de pão.




Boi de Haxixe - Ceumar [Dindinha - 2000]
Composição - Zeca Baleiro