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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Maneira de Amar


Minha singela homenagem ao aniversário do querido 
Carlos Drummond de Andrade. 



O jardineiro conversava com as flores, e elas se habituaram ao diálogo. Passava manhãs contando coisas a uma cravina ou escutando o que lhe confiava o gerânio. O girassol não ia muito com sua cara, ou porque não fosse homem bonito, ou porque os girassóis são orgulhosos de natureza.

Em vão o jardineiro tentava captar-lhes as graças, pois o girassol chegava a voltar-se contra a luz para não ver o rosto que lhe sorria. Era uma situação bastante embaraçosa, que as outras flores não comentavam. Nunca, entretanto, o jardineiro deixou de regar o pé de girassol e renovar-lhe a terra, na ocasião devida.

O dono do jardim achou que seu empregado perdia muito tempo parado diante dos canteiros, aparentemente não fazendo coisa alguma. E mandou-o embora, depois de assinar a carteira de trabalho.

Depois que o jardineiro saiu, as flores ficaram tristes e censuravam-se porque não tinham induzido o girassol a mudar de atitude. A mais triste de todas era o girassol, que não se conformava com a ausência do homem. "Você o tratava mal, agora está arrependido? "Não, respondeu, estou triste porque agora não posso tratá-lo mal. É a minha maneira de amar, ele sabia disso, e gostava."



Carlos Drummond de Andrade
In: Contos Plausíveis - 1981



*

É bom lembrar que hoje também é o dia do Saci Pererê.
Viva o Saci!!! (o Saci é nosso!)


sábado, 29 de outubro de 2011

Anjos na Biblioteca


O escritor argentino, Jorge Luis Borges, disse: "Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria." Para mim também pode ser uma biblioteca. Ter livros por perto traz sempre a sensação de poder viajar e trilhar por caminhos iluminados. E quem melhor para iluminar nossos caminhos do que os Anjos?

Hoje é o dia do livro, por isso selecionei uma cena de um dos filmes mais bonitos e sensíveis que já vi – “Asas do Desejo” (1987) do realizador Wim Wenders. A cena se passa numa biblioteca, onde as pessoas estão lendo e estudando sem saberem que são observadas por anjos que os guardam.




Você já viu Anjos na biblioteca?



sábado, 22 de outubro de 2011

If...


E até hoje não me esqueci
Do Anjo da Anunciação no quadro de Botticelli:
Como pode alguém
Apresentar-se ao mesmo tempo tão humilde e cheio
                                                        [de tamanha dignidade?
Oh! tão soberanamente inclinado...
Se pudéssemos ser como ele!
Os Anjos dão tudo de si
Sem jamais se despirem de nada.


Mario Quintana
In: Apontamentos de História Sobrenatural

Imagem: Sandro Botticelli - Annunciazione - 1485



terça-feira, 18 de outubro de 2011

Imagens são Palavras que nos Faltam (FotoBlog)

Foi em 2010 que eu tive o "click" e fiz minha primeira fotografia pensando no resultado que eu gostaria de obter.  Claro que eu não tinha nenhuma noção técnica, mas eu sabia o que queria e fiz.

A foto é esta:


Desde então, sempre faço experiências na tentativa de acertar, algumas resultam outras nem tanto. O equipamento é simples, as técnicas são básicas, mas o desejo de aprender e evoluir é o que me move!

*

Olá,

Este é um trecho do texto de Apresentação do blog que criei para publicar minhas fotografias - "Imagens são Palavras que nos faltam". Gostaria de convidá-los a fazer uma visita. Será uma honra recebê-los. 



PS: Continuarei postando no "Compartimento Secreto". O novo blog será apenas para as fotos. Espero vocês por lá!


domingo, 16 de outubro de 2011

Alice e a Lagarta



A Lagarta e Alice olharam-se por algum tempo em silêncio. Por fim, a Lagarta tirou o narguilé da boca e dirigiu-se a Alice com uma voz lânguida e sonolenta. "Quem é você?", disse a Lagarta. Não era um começo de conversa muito estimulante. Alice respondeu um pouco tímida: "Eu... eu... no momento não sei, minha senhora... pelo menos sei quem eu era quando me levantei hoje de manhã, mas acho que devo ter mudado várias vezes desde então".


Lewis Carroll
In: Alice no País das Maravilhas

Ilustração: John Tenniel

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O Pequeno Nicolau


“É no plano do devaneio, e não no plano dos fatos, que a infância permanece em nós viva e poeticamente útil. Por essa infância permanente preservamos a poesia do passado.”

Gaston Bachelard
In: A Poética do Espaço


Já falei que gosto de leveza? Foi isso que encontrei no divertido (e leeeve) filme "O Pequeno Nicolau" (2010) - de Laurent Tirard - inspirado numa história em quadrinhos, dos anos 1950, de mesmo nome.

Nicolau é filho único, tem uma vida confortável e feliz. Estuda numa escola para meninos e nas horas vagas, junto com a turma, pinta o sete e desenha o oito - apronta de tudo e mais um pouco. Tudo corre bem, até o dia que ele descobre que a mãe está grávida e por informações desencontradas dos amigos que já têm irmãos e detalhes do conto de fadas que ouviu na aula, Nicolau entende que será abandonado na floresta quando o irmão nascer. A partir daí ele e a turma criam um plano para resolver a questão.  E a história se desenvolve num ritmo de diversão e toda sorte de aventura. 
Os personagens são cativantes e as atuações são encantadoras, principalmente quando penso que a maior parte do elenco é de criança e não de atores profissionais. Para alguns pode parecer clichê ou água-com-açúcar, mas talvez esse seja todo o encanto desse filme, que eu achei impecável!


É impossível não identificarmos num dos meninos alguns daqueles colegas de escola que pareciam um personagem de história em quadrinhos. Por isso, hoje vou revê-lo, sabendo que vou rir (chorar de rir) e recordar de coisas que também vivi na minha infância.   




Se é Dia das Crianças então vamos dar uma revirada dentro de nós e buscar qualquer vestígio da criança que fomos um dia. Um pouquinho de pureza e espontaneidade, eu garanto, não faz mal a ninguém. 



sábado, 8 de outubro de 2011

Artefato nipônico




A borboleta pousada
ou é Deus
ou é nada.




Adélia Prado
In: A faca no peito - 1988
(Por causa da beleza do mundo)

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O simples resolve tudo


"Somos todos irmãos da lua
Moramos na mesma rua
Bebemos do mesmo copo
A mesma bebida crua
O caminho já não é novo
Por ele é que passa o povo
Farinha do mesmo saco
Galinha do mesmo ovo
Mas nada é melhor que a água
E a terra é a mãe de todos
O ar é que toca o homem
E o homem maneja o fogo
E o homem possui a fala
E a fala edifica o canto
E o canto repousa a alma
Da alma depende a calma
E a calma é irmã do simples


E o simples resolve tudo
Mas tudo na vida às vezes
Consiste em não se ter nada."



Irmãos da Lua - Renato Teixeira (1995)

Saudações Franciscanas!
Paz e Bem!


Imagem: Jill - 2011