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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Renovando o convite


Venho renovar o convite a quem tem interesse em visitar os lugares na web onde exponho minhas fotografias.

Aproveito para agradecer aos que acompanham meu trabalho que ainda está na rama mas com muita gana de florescer. Visitas, comentários, críticas e sugestões são sempre um ótimo incentivo, sintam-se à vontade!







Luz e Paz, sempre!

sábado, 1 de dezembro de 2012

Receita para fazer o Azul

Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz - eu, Abraão ben Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé - e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu.

Nuno Júdice
in, Meditação Sobre Ruínas - 1994


quinta-feira, 22 de novembro de 2012

The Beatles... simples assim!


Escutar The Beatles sempre terá essa força que revigora. É reaver o entusiasmo juvenil que, por vezes, na fase adulta parece que pretende fugir. É delicioso revirar discos antigos e recordar que certas canções, um dia, fizeram todo sentido e outras ganharam novas cores.

The Beatles são eternos, sim. Não conheço ninguém que tenha deixado de gostar do som dos 4 meninos. A paixão se renova e passa de pai para filho e , às vezes, de filho para pai. A magia é esta!


Ouço MPB, samba, forró, blues, jazz, música barroca, fado... mas sempre regresso aos garotos de Liverpool. Dito assim até parece que The Beatles é um gênero musical... mas é, simples assim!




"Love is old, Love is new
Love is all, Love is you..."

domingo, 4 de novembro de 2012

Facilidade Repentina

"(...) Fui ver um filme, não entendi nada, mas senti tudo. Vou vê-lo de novo? Não sei, posso desta vez não estar em bem-estar, não quero arriscar, posso de repente entender e não sentir."

Clarice Lispector
in, Aprendendo a Viver



quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Retrato (para Drummond)


Parabéns, Carlos!


O sorriso escasso,
O riso-sorriso,
A risada nunca.
(Como quem consigo
Traz o sentimento 
Do madrasto mundo.)

Com os braços colados 
Ao longo do corpo,
Vai pela cidade
Grande e cafajeste,
Com o mesmo ar esquivo
Que escolheu nascendo
Na esquiva Itabira.

Aprendeu com ela
Os olhos metálicos
Com que vê as coisas:
Sem ódio, sem ênfase,
Às vezes com náuseas.

Ferro de Itabira,
Em cujos recessos
Um vedor, um dia,
Um vedor - o neto - 
Descobriu infante
As fundas nascentes,
O veio, o remanso
Da escusa ternura.

Manuel Bandeira
in, Opus 10 (1952)

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Duas versões - Chico César e Né Ladeiras


Neste disco, que considero um dos trabalhos mais expressivos de Chico César - Cuscuz Clã (1996) -, há uma música forte com letra poética - As Asas. Partilho duas versões da mesma poesia, primeiro a versão de Chico, com arranjos rebuscados, e a seguir numa versão mais zen na doce voz da Né Ladeiras. 

As Asas - Chico César

 

"Voar sem asas 
lavar-se com as brasas 
que o amor acendeu."

sábado, 20 de outubro de 2012

Zoologia: outro gato


Um gato, numa casa velha, toma
posse de tudo. São dele os sofás esburacados,
as camas por fazer, os armários de portas
abertas. Sobe para cima das cadeiras e,
como um deus, olha os seus domínios
sem compaixão nem medo.

Porém, se o surpreendemos
na sua pose, inquieta-se. Arqueia o dorso,
olha-nos com ar de desafio, e só
se alguém se aproxima é que
salta, dando início à fuga por entre salas
e corredores.

Por fim, talvez o encontremos a espreitar
de um telhado; ou a sua presença furtiva se
sinta à noite, quando nos apercebemos
do bater de uma janela mal fechada,
ou damos por que o vento empurrou a porta
do quintal.

Nuno Júdice
in, A Fonte da Vida - 1997

Imagem: Web

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Os desenhos animados da minha infância


Deixando 'las preguntas' um pouco de lado, e a propósito do dia das crianças, que será comemorado amanhã, mergulho no mundo das animações que me acompanharam durante grande parte da minha infância e até hoje ainda ocupa algum espaço. Baseada no divertido post da Carla Ceres, sobre desenhos e quadrinhos, fiz uma seleção dos desenhos animados que faziam minha cabeça e, repito, ainda fazem.



Da minha mais remota lembrança, os Smurfs foram os primeiros. Eu não passava um dia sem ver esses duendes azuis. Eu tinha uma mórbida atração por Gargamel e seu gato Cruel. Eles eram maus, mas tinham qualquer ingenuidade que me atraia. Dos Smurfs, o que eu mais gostava era o Habilidoso, aquele que usava um lápis por trás da orelha e sabia consertar tudo. Há pouco tempo fiquei sabendo que ainda passa na TV. : )




A Luluzinha era aquela florzinha, mas não era nada tola. Conhecia seu lugar no mundo e sabia se impor. Talvez a primeira personagem feminista a quem tive acesso, mas lembro que era um feminismo ponderado. Eu adorava. Salvo engano, ainda passa na TV.


A lânguida Pantera-Cor-de-Rosa, que faz parte do imaginário de várias gerações é esse felino autêntico que não se deixa explorar, tem um jeitinho malandro e faceiro. Até hoje eu não sei se a pantera é macho ou fêmea. Mas não importa!



A turma do Manda-Chuva também é das antigas, das séries da Hanna-Barbera era a que eu mais gostava. Não por acaso o desenho era majoritariamente com gatos. E o melhor, gatos de rua, entendidos na arte da vadiagem. Ah, meus olhos ficavam vidrados. ^^



Concluo a lista com o gauche Charlie Brown. Eu ainda não tinha muito entendimento para acompanhar as histórias excêntricas de Charlie Brown, mas havia ali algo que eu gostava. Hoje eu sei, era a introspecção dos personagens, o apelo pela reflexão, as dúvidas e perguntas sem resposta. Era uma turminha existencialista.

A lista poderia ser maior, mas estes são os desenhos mais emblemáticos da minha infância. Para mim, todos eles ainda são interessantes, e sempre que possível revejo alguns episódios.

Desejo um lindo dia das Crianças para as crianças de todas as idades!


domingo, 7 de outubro de 2012

Das Perguntas


Em que janela me quedei
olhando o tempo sepultado?

Ou o que olho de longe
é o que não vivi ainda?

Pablo Neruda
in, Livro das Perguntas

Imagem: Web

terça-feira, 18 de setembro de 2012

De gaivotas e golfinhos


A Boca do Inferno, na terra de Camões - um sítio onde a Natureza expõe suas entranhas a ponto de ser obscena, as ondas incansáveis lambem as pedras sem nenhum pudor e as gaivotas serelepes flanam soltas sobre nossas cabeças - foi um dos poucos lugares onde estive sem minha câmera e talvez por isto o que lá ouvi ficou registrado na minha memória como a mais bonita e bem conseguida fotografia:

"As gaivotas são os
golfinhos do ar."



Imagem: Jennaly Richards

sábado, 15 de setembro de 2012

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Cooper - O olhar de um gato fotógrafo


Olhei esta fotografia e pensei: aí está um ângulo diferente. O fotógrafo deitou no chão para fotografar o gato.  Até poderia ser, mas esta foto foi feita por outro gato. 

Eu já sabia que os gatos podem quase tudo, eles têm habilidades incríveis, mas saber que eles fotografam, para mim, foi uma grande surpresa. As fotos a seguir foram feitas por um gatinho norte-americano chamado Cooper cujos donos tiveram a ideia de pendurar uma mini-câmera fotográfica em seu pescoço. 








A câmera caseira, feita sob encomenda, faz fotos num intervalo de 2 minutos e rastreia os caminhos que o felino percorre. Os donos acharam que o resultado das fotos é bem interessante, e eu também acho, começaram a expô-las na net e agora estão vendendo as imagens pela bagatela de R$ 500. Eles dizem que o valor arrecadado é para a compra de ração para Cooper e doações para animais abandonados. Se assim for, tudo bem. Espero também que Cooper não se sinta incomodado com este equipamento em volta do pescoço.

E este é o gato fotógrafo - Cooper!
Lindinho! ^^


Para ver outros trabalhos de Cooper acesse seu Flickr > Cooper

domingo, 9 de setembro de 2012

Domingo, Silêncio e Solidão


"Fiquei sozinha um domingo inteiro. Não telefonei para ninguém e ninguém me telefonou. Estava totalmente só. Fiquei sentada num sofá com o pensamento livre. Mas no decorrer desse dia até a hora de dormir tive umas três vezes um súbito reconhecimento de mim mesma e do mundo que me assombrou e me fez mergulhar em profundezas obscuras de onde saí para uma luz de ouro. Era o encontro do eu com o eu. A solidão é um luxo."

Clarice Lispector
in, Um sopro de vida (Pulsações)

Pintura: Woman on a sofa - Kess van Dongen

terça-feira, 4 de setembro de 2012

70 com espírito de 20


Esta semana minha mãe completou 70 anos. Uma idade bonita e que mereceu uma comemoração cheia de carinho em companhia da família, que não é nada pequena. Depois de tudo me peguei a pensar: será que chegarei aos 70? E se chegar, terei a mesma vitalidade que ela tem?

Hoje em dia vivemos mais, porém as campanhas nas mídias, em geral, dão força para que as pessoas não demonstrem sua real idade. Ainda que para isso seja preciso se submeter a plásticas, botox e todos os aparatos dermatológicos caríssimos.

Então eu olho para as marcas de expressão no rosto da minha mãe. Elas têm sua história, revelam um percurso de vida sofrida, mas também de vitórias. Minha mãe não tem vaidades excessivas mas continua bonita, firme e forte. Mas isto é tão simples que mal conseguimos enxergar: a beleza é tão somente um estado de espírito. O sorriso e os olhos revelam a força disto, e não há tratamento dermatológico que supere.

Parabéns a minha mãe por ser uma moça num corpo de uma senhora. E parabéns para mim e meus irmãos por termos uma super-mãe cheia de jovialidade e fé na Vida.

Quanto a mim, espero chegar aos 70 feito essa senhorinha da imagem acima, plena de vida, com a esperteza de uma criança... e de All Star. Yep!

Imagem: Web

sábado, 1 de setembro de 2012

Antes do nome


Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe
os sítios escuros onde nasce o 'de', o 'aliás',
o 'o', o 'porém' e o 'que', esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.

Adélia Prado
In: Bagagem (1976)

Imagem: Icebeer

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Receita para lavar palavra suja

Repostando porque convém!



Se, segundo o poeta gauche, "lutar com palavras é a luta mais vã", façamos a receita (à moda cabralina), da Viviane Mosé, para lavar palavra suja.

***

Mergulhar a palavra suja em água sanitária, e depois de dois dias de molho quarar ao sol do meio dia.

Algumas palavras, quando são alvejadas ao sol, adquirem consistência de certeza, como, por exemplo, a palavra vida. Existem outras, e a palavra amor é uma delas, que são muito encardidas e desgastadas pelo uso, o que recomenda esfregar e bater insistentemente na pedra e depois enxaguar em água corrente. São poucas as palavras que resistem a esses cuidados, mas sempre existem aquelas.

Dizem que limão e sal tiram sujeiras difíceis, mas toda tentativa de lavar a piedade foi sempre em vão. Eu nunca vi palavra tão suja quanto perda; perda e morte, na medida em que são alvejadas, soltam um líquido corrosivo que atende pelo nome de amargura, que é capaz de esvaziar o vigor da língua. O conselho nesse caso é mantê-las de molho num amaciante de boa qualidade.

Mas se o que você quer é só aliviar as palavras do uso diário, pode usar sabão em pó e máquina de lavar. O perigo é misturar palavras que mancham no contato umas com as outras. Culpa, por exemplo, mancha tudo que encontra, e deve sempre ser alvejada sozinha. Outra mistura pouco aconselhada é amizade e desejo. Desejo é uma palavra intensa e pode, o que não é evitável, esgarçar a força delicada da palavra amizade.

É importante não lavar demais as palavras sob o risco de perderem o sentido. Aquela sujeirinha cotidiana, quando não é excessiva, produz uma oleosidade que dá vigor aos sons.

Muito importante na arte de lavar palavras é saber reconhecer uma palavra limpa. Conviva com as palavras durante alguns dias, deixe que se misturem em seus gestos e que  passeiem pela expressão de seus sentidos. À noite, permita que se deitem não ao seu lado, mas sobre o seu corpo. Enquanto você dorme a palavra plantada em sua carne prolifera em toda a sua possibilidade.

Se você puder suportar essa convivência até não mais perceber a presença dela, aí você tem uma palavra limpa.

Uma palavra limpa é uma palavra possível.





Imagem: Web

domingo, 19 de agosto de 2012

Quando a Fotografia dialoga com a Poesia



"Perto da nossa casa havia uma igreja com duas torres sineiras que mais pareciam gigantes coroados. Na cúpula de uma delas, aquela que ficava a nascente, havia um ninho com duas cegonhas brancas, protegido por uma das suas cantarias. Quando o sol estava a pique, estalavam os bicos como se fossem aplausos num deserto. Aprendi mais tarde que a esse bater de bico se chamava gloterar, ou glotorar. Era o único som que se ouvia no silêncio dos domingos de verão, depois de almoço, antes da avó nos chamar para dormir. Hoje, só resta a Igreja, ainda imponente e coroada, mas sem aquele alvéolo de beleza e ternura que era o ninho das cegonhas brancas perto da nossa casa. 
Este par, encontrava-se de vigia na entrada de uma aldeia vizinha. Já não era a torre gigante, nem um frenesim de aplausos no meio de nada, mas o crepúsculo estava ali para nos evocar que mesmo depois de dormir, mesmo depois do deserto, o silêncio não será mais o mesmo."

Cavalos no Gelo-
Miguel Pessoa Vidal

Mais fotografias, textos e vídeos, no link: Cavalos no Gelo

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A falta que uma gatinha faz


Faz mais de 15 dias que minha gata, Ritinha, foi embora para o Céu dos gatinhos. Na primeira semana eu chorei copiosamente, agora chorar já não faz sentido, no entanto ainda sinto muita falta da minha florzinha.

Em seu "Seco estudo sobre cavalos", Clarice Lispector diz que 'o cavalo é nu', concordo com a assertiva, mas acrescento que todos os animais são nus e desprovidos de máscaras. Os animais são como são e é por isso que nos conquistam e a eles nos entregamos sem reservas. E os gatos? Além de serem nus, são livres, despojados, e é essa liberdade que os tornam tão queridos. 

Minha Ritinha deixou saudades. Aquela guria feia não levou a sério o dito que gato tem sete vidas. Inúmeros gatinhos foram meus donos (sim, eles são nossos donos), mas a Ritinha teve um lugarzinho especial no meu coração.

*
Curiosamente, Matilde, a outra gata, que era insuportavelmente arisca (quase uma jaguatirica) agora está mansinha e afetuosa. É, os cats são ciumentos.
E para não dizer que não falei em Kiko, ele continua zen e caminhando para seus 20 aninhos. Kiko tem muito mais de 7 vidas.

PS: Ritinha morreu de infarto, eu não sabia que gatos podem sofrer do coração. =/

domingo, 5 de agosto de 2012

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Os passarinhos são assim...


"Os passarinhos são assim de propósito: bonitos não sendo da gente."


João Guimarães Rosa
In: Manuelzão e Miguilim


Foto: Margot Félix, em Imagens são Palavras que nos Faltam

sábado, 21 de julho de 2012

Lusofonia



rapariga: s.f., fem. de rapaz; mulher nova; moça; menina; (Brasil), meretriz.

Escrevo um poema sobre a rapariga que está sentada
no café, em frente da chávena do café, enquanto
alisa os cabelos com a mão. Mas não posso escrever este
poema sobre essa rapariga porque, no brasil, a palavra
rapariga não quer dizer o que ela diz em portugal. Então,
terei de escrever a mulher nova do café, a jovem do café,
a menina do café, para que a reputação da pobre rapariga
que alisa os cabelos com a mão, num café de lisboa, não
fique estragada para sempre quando este poema atravessar
o atlântico para desembarcar no rio de Janeiro. E isto tudo
sem pensar em áfrica, porque aí lá terei
de escrever sobre a moça do café, para
evitar o tom demasiado continental da rapariga, que é
uma palavra que já me está a pôr com dores
de cabeça até porque, no fundo, a única coisa que eu queria
era escrever um poema sobre a rapariga
do café. A solução, então, e mudar de café, e limitar-me a
escrever um poema sobre aquele café onde nenhuma rapariga se
pode sentar à mesa porque só servem cafés ao balcão.


Nuno Júdice -
In: A matéria do poema

Imagem: web

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Sem-Lua


O homem pisou na Lua, mas não se deu por satisfeito... confinou-a por trás das altas torres dos edifícios.
Distraio-me e penso que toda luz a brilhar nos céus das grandes cidades é a Lua.
Susto: são as luzes das cem-mil casas empoleiradas.

Foto: Recife numa noite de Lua, sem-lua.

domingo, 15 de julho de 2012

Alegre

Repostando... porque convém!


O Dito dizia que o certo era a gente estar sempre brabo de alegre, alegre por dentro, mesmo com tudo de ruim que acontecesse, alegre nas profundas. Podia?

Alegre era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando demais com coisa nenhuma."


João Guimarães Rosa
In: Campo Geral - Manuelzão e Miguilim 



Imagem: Web

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Viajo porque Preciso, Volto porque Te Amo.


Viajo porque preciso, Volto porque te amo (2010) - realizado por Karim Ainouz (O Céu de Suely) e Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus) - , tem título piegas e foi por isso que chamou minha atenção. Vi o filme sem saber do que se tratava, esperei o óbvio, mas tive uma boa surpresa.

O geólogo de 35 anos, José Renato, sai de Fortaleza e se embrenha pelos sertões do Ceará, Pernambuco e Paraíba, para realizar uma pesquisa de campo e avaliar o terreno para a abertura de um canal para as águas da transposição do rio São Francisco. A viagem, que a princípio seria a trabalho, torna-se uma espécie de degredo, pois José Renato está sofrendo de mal de amor, e encontra no isolamento daquelas terras uma chance de se distanciar de si mesmo, tenta esquecer a "galega", e se envolve com os moradores de vidas secas daquela região árida. A partir daí o filme ganha ares de documentário, e o personagem que até então fala apenas de si mesmo, ouve o que os outros têm a dizer. Sai do cronograma da pesquisa e transita por ambientes ora pitorescos, ora poéticos. Lida com pessoas que, apesar de fazerem parte de uma realidade peculiar, vivenciam inquietações universais: medo, vazio, solidão, desilusões e também todo o contrário disso. 

De tudo, o que mais me impressionou nesse filme foi a fotografia experimental; o elemento humano que, apesar da aridez da paisagem, é muito presente, e me surpreendi com a envolvente narração do protagonista, que nunca aparece, feita pelo querido ator Irandhir Santos, que interpretou o Quaderna na belíssima série "A Pedra do Reino".



Veja o trailer:

sábado, 7 de julho de 2012

Confissão


Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!



Mario Quintana
In: Velório sem defunto - 1990

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Das reminiscências da juventude II


A propósito do post anterior. A propósito das caixinhas de tesouros que se escondem nos lugares mais improváveis.





Cena do filme "O fabuloso Destino de Amélie Poulain" - 2001

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Das reminiscências da juventude

Quem diria que uma simples pulseira de pano poderia me tirar do lugar me arremessando para 20 anos atrás.

Era um hit de verão e quase todas as meninas daquela época curtiram a moda. Nem sempre sabemos a origem, mas o fato é que em poucos dias nossos pulsos estavam repletos de pulseiras coloridas.

Estas:


A amiga Kalina era a maior entusiasta, usava-as por todo o braço. Já não recordo ser eram nos dois braços e também nos tornozelos (Kalina, por favor, refresque minha memória). Ficávamos à espera de novas cores, trocávamos as repetidas e assim tínhamos diversão garantida. Ah! Como é bonita a simplicidade das crianças.

Poucos anos atrás procurei-as na web, mas por falta de referência não tive nenhum vestígio. Porém, o passado sempre nos espreita e as boas (e também as más) lembranças ressurgem como numa explosão. Dessa vez tive sorte, a lembrança foi das melhores. Só não esperava que fosse tão longe de casa.

E como já era de se esperar, comprei as pulseiras, amarrei-as no pulso e por um instante revivi o frescor de um tempo em que umas das minhas maiores preocupações era escolher a cor de uma pulseira.


domingo, 10 de junho de 2012

Uma pergunta

Gastar a vida é usá-la ou não usá-la? Que é que estou exatamente querendo saber?

Clarice Lispector
In: Aprendendo a Viver

terça-feira, 29 de maio de 2012

Revisitando o Convento com Sete-Sóis e Sete-Luas

Não pretendo fazer deste blog um diário de viagem, mas há certas experiências que devem ser compartilhadas; ainda que seu significado seja tão íntimo que torne-se difícil dizer com palavras.

Aqui em Portugal já estive em diversos lugares que me deixaram sem fala - contemplo, apenas. No entanto, em Mafra o sentimento (ou reação) foi outro.


Quem leu o "Memorial do Convento", de José Saramago, dificilmente verá o convento de Mafra com olhos desatentos. É certo que o livro não tem rigor histórico, embora haja personagens e fatos históricos, a licença poética é mais forte e é elemento que traz magia ao romance.


Ao ver o exterior do convento não pude deixar de pensar no campo de batalha que foi aquela região, sendo necessários cerca de 50 mil trabalhadores, para que este palácio fosse edificado. Tentei recriar no meu pensamento os operários circulando naquele ambiente numa labuta infindável. (por coincidência o pátio do convento estava em obras de restauração, mas hoje a tecnologia é outra.)

A emoção foi grande, mas a parte mais arrebatadora estava por vir - foi quando entrei na Basília do Convento. Palavras nem fotografias podem traduzir a grandeza e a força daquele lugar. Calei-me e chorei. Chorei copiosamente.



É difícil dizer quantos e quais pensamentos povoaram minha cabeça. Uma confusão de sentimentos também. Ao passo que eu me encantava com a suntuosidade, a riqueza de detalhes, o rebuscado da arquitetura; eu também pensava na simplicidade daqueles que, anonimamente, emprestaram sua arte para compor aquela obra tão rica.


Depois pensei na minha família e amigos, que estão tão longe, e que eu queria que também vissem aquela beleza. E, obviamente, não esqueci do casal mais apaixonado da literatura: Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas - “casal ilegítimo por sua própria vontade” -  que, no romance, nunca entraram na Basílica, mas naquele dia estavam comigo, testemunhando o que senti.

Desejei uma passarola para sobrevoarmos os arredores do lugar que inspirou a escrita da obra-prima de Saramago. Desejei ouvir a melodia do cravo do Sr. Scarlatti.




Domenico Scarlatti foi um compositor italiano de música barroca, personagem histórico romanceado por Saramago em "Memorial do Convento". 

quarta-feira, 16 de maio de 2012

"Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam"

Se o voo foi cancelado e teve um atraso de 24h é porque minha chegada estava reservada para o dia 25 de abril. Cheguei a Portugal numa data significativa para os portugueses, e agora especial para mim. Era feriado e as ruas estavam tranquilas. Os termômetros não marcavam mais de 12 graus, mas a minha euforia passava dos 30. Fui recebida com flores do campo e um sorriso ansioso; sim, "sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam."

E foi esta a 1ª impressão que tive de Lisboa:


Tudo que eu falar desta cidade será redundante, mas não canso de dizer: É linda!!!

A pequenina cidade que me acolheu também é linda e florida. Aliás, quem ama flores, assim como eu, não cansa de se encantar com as veredas desse lugar - há flores em tudo que eu vejo. Já fiz alguns passeios pelos arredores, são lugares bucólicos e quase sempre poéticos. A visita a Mafra foi a mais arrebatadora e merece post à parte. No mais, o que posso dizer é que a terra de Camões me fisgou. 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Aniversário do blog, uma canção e uma pausa


Então hoje é o aniversário do Compartimento Secreto. Mais 1 ano colecionando Coisas Pequenas. Há dois anos eu não imaginava que teria fôlego para passar tanto tempo blogando, mas tomei gosto e já não sei ficar muito tempo sem compartilhar algo, visitar os blogs amigos e conhecer outros Compartimentos. A blogosfera é fascinante!

Outro dia perguntaram-me porque esse título do blog, hoje eu explico: o primeiro passo para criar um blog é escolher um título, o que para mim não foi nada fácil. Passei dias pensando em algo, mas foi num momento de distração que tive a inspiração. Ouvido a canção "Coisas Pequenas" dos Madredeus - grupo musical que me arrebatou desde a primeira vez que ouvi - pensei: este é um hino ao Amor e todas as coisas simples e verdadeiras - é uma louvação ao que é grande! É este o nome.

E a canção é esta >> 




Quero agradecer a todos que participam do blog e aos que deixam comentários que trazem incentivo e acrescentam beleza ao meu trabalho de colecionar Coisas Pequenas. E dou as boas-vindas aos que chegarem. O compartimento é secreto, mas a porta está aberta!

*

Coincide com esta ocasião a entrada do meu Ano Novo pessoal. Darei uma breve pausa nas postagens, para levantar voo, pois as asas já estão prontas. É hora de se cumprir o que já não tem razão de esperar.


"E a hora
Que te espreita
É só tua.
Decerto, não será
Só a que te resta;
A hora
Que esperei a vida toda,
É esta."

Luz e Paz, sempre!!!

quarta-feira, 11 de abril de 2012

História trágica com final feliz


"As pessoas já não sabiam se era alguém que morria ou alguém que nascia. 
Mas uma coisa era certa: ninguém se importaria de partir assim."


Às vezes, o que se quer é somente Voar.



História trágica com final feliz - Regina Pessoa - 2005

sábado, 7 de abril de 2012

Ovos de Páscoa




O ovo cabe em si, túrgido de promessas,
a natureza morta palpitante.
Branco tão frágil guarda um sol ocluso,
o que vai viver, espera.

Adélia Prado
In: Bagagem - 1976




Feliz Páscoa!

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Um sofá poético


Encontrei essa foto, na web, já faz alguns anos. Hoje tirei da gaveta e trouxe para o Compartimento. Não sei quem foi o feliz autor desse registro, nem a ocasião de tal evento, mas sempre que vejo fico com um leve sorriso na face.

Vamos às apresentações: o pernambucano, Manuel Bandeira, observando a "Cinza das Horas", ou sonhando com a Pasárgada?; a seguir, Carlos Drummond de Andrade todo gauche e mineiramente quieto (reparem em suas mãos postas sobre as pernas - que singelo!); Cecília Meireles nem alegre nem triste, sendo apenas e tão somente uma belíssima (e grande) poeta; Vinícius de Moares, o "poetinha" - nada tímido nada gauche - visivelmente inclinado para a bela musa. E aquele uísque ali na mesinha, alguém duvida que seja dele?

Esse é ou não é um lindo e poderoso sofá poético?