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sábado, 7 de janeiro de 2012

Verbo


Ponho palavras em cima da mesa; e deixo
que se sirvam delas, que as partam em fatias, sílaba a
sílaba, para as levarem à boca – onde as palavras se
voltam a colar, para caírem sobre a mesa.

Assim, conversamos uns com os outros. Trocamos
palavras; e roubamos outras palavras, quando não
as temos; e damos palavras, quando sabemos que estão
a mais. Em todas as conversas sobram as palavras.

Mas há as palavras que ficam sobre a mesa, quando
nos vamos embora. Ficam frias, com a noite; se uma janela
se abre, o vento sopra-as para o chão. No dia seguinte,
a mulher a dias há-de varrê-las para o lixo.

Por isso, quando me vou embora, verifico se ficaram
palavras sobre a mesa; e meto-as no bolso, sem ninguém
dar por isso. Depois, guardo-as na gaveta do poema. Algum
dia, estas palavras hão-de servir para alguma coisa.


Nuno Júdice
In: As Coisas mais Simples - 2007



Gentilmente compartilhado por Cirandeira


Imagem: Web

5 comentários:

  1. Lindo demais. Tenho uma gaveta lotada de palavras que juntei por ali e por aqui.

    Um beijo!

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  2. Não conhecia esse poema do Júdice. Que bonito. É tão triste deixar palavras frias sobre a mesa...
    bjo

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  3. As palavras foram feitas para serem usadas: faladas, escritas, pensadas.
    Nunca, jamais desperdiçadas!
    Bjs (Ah... feliz 2012!)

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  4. Cada dia que passa percebo que imagem e palavra são similares.

    :)

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  5. gosto muito quando você posta Nuno :)

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