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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Retrato (para Drummond)


Parabéns, Carlos!


O sorriso escasso,
O riso-sorriso,
A risada nunca.
(Como quem consigo
Traz o sentimento 
Do madrasto mundo.)

Com os braços colados 
Ao longo do corpo,
Vai pela cidade
Grande e cafajeste,
Com o mesmo ar esquivo
Que escolheu nascendo
Na esquiva Itabira.

Aprendeu com ela
Os olhos metálicos
Com que vê as coisas:
Sem ódio, sem ênfase,
Às vezes com náuseas.

Ferro de Itabira,
Em cujos recessos
Um vedor, um dia,
Um vedor - o neto - 
Descobriu infante
As fundas nascentes,
O veio, o remanso
Da escusa ternura.

Manuel Bandeira
in, Opus 10 (1952)

4 comentários:

  1. Olá, Margot!!

    Se existe uma metáfora que merece respeito esta é: "Drummond é Itabira!" e vice versa!!!Eis aí o velho Bandeira e seus "retratos" Lindo mais do que nunca!!Bjs, Dy.

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    1. Mas ainda bem que ele saiu dela lá, certamente não teria dado vazão a tanta criatividade. O poeta deve sair do lugar onde vive, mas sem cortar raízes... e Drummond fez isto sabiamente.

      Um abraço, Diana! :)

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  2. Cá entre nós, Margot, prefiro Bandeira a Drummond. Beijos!

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    1. Carla, sou fã inconteste de Drummond, mas reconheço a força da poesia de Bandeira... também foi um grande! :)

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