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domingo, 29 de janeiro de 2012

Acerca de um beijo e outras singelezas

Durante todas as noites desse verão, as estrelas foram líquidas no céu. Quando eu as olhava, eram pontos líquidos de brilho no céu. 

Na primeira vez, encontrámo-nos durante o dia: eu sorri-lhe, ela sorriu-me. Dissemos duas ou três palavras e contivemo-nos dentro dos nossos corpos. Os olhos dela, por um instante, foram um abismo onde fiquei envolto por leveza luminosa, onde caía como se flutuasse: cair através do céu dentro de um sonho. 

Naquela noite, fiquei a esperá-la, encostado ao muro, alguns metros depois da entrada da pensão. As pessoas que passavam eram alegres. Eu pensava em qualquer coisa que me fazia sentir maior por dentro, como a noite. As folhas de hera que cobriam o cimo do muro, e que se suspendiam sobre o passeio, eram uma única forma nocturna, feita apenas de sombras. Primeiro, senti as folhas de hera a serem remexidas; depois, vi os braços dela a agarrarem-se ao muro; depois, o rosto dela parado de encontro ao céu claro da noite. E faltou uma batida ao coração. O mundo parou. Sombras pousavam-lhe, transparentes, na pele do rosto. O ar fresco, arrefecido, moldava-lhe a pele do rosto. E o mundo continuou. Ajudei-a a descer. 

Corremos pelo passeio de mãos dadas. A minha mão a envolver a mão fina dela: a força dos seus dedos dentro dos meus. Na noite, os nossos corpos a correrem lado a lado. Quando parámos: as nossas respirações, os nossos rostos admirados um com o outro: olhámo-nos como se nos estivéssemos a ver para sempre. Quando os meus lábios se aproximaram devagar dos lábios dela e nos beijámos, havia reflexos de brilho, como pó lançado ao ar, a caírem pela noite que nos cobria.

José Luís Peixoto
In: Cemitério de Pianos


Foto: Jonpaul Douglass

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Meme literário


"[...] Penso que as palavras essenciais
Que me expressam se encontram nessas folhas 
Que não sabem quem sou [...]"

Jorge Luis Borges

1 - Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?

- Mais de um: Grande Sertão: Veredas e Sagarana (João Guimarães Rosa); O Romance d’A Pedra do Reino (Ariano Suassuna).

2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

- O Nome da Rosa (Umberto Eco), mas um dia lerei pra valer!

3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?

- Grande Sertão: Veredas

4 - Que livro gostarias de ter lido mas, por algum motivo, nunca leste?

- Dom Quixote de La Mancha (Miguel de Cervantes)

5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?

- Nenhum Olhar (José Luís Peixoto)

6- Tinhas o hábito de ler quando era criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

- Sim, livros de literatura infanto-juvenil e também gibis.

7. Qual o livro que achaste chato, mas ainda assim leste até ao fim? Por quê?

- A identidade (Milan Kundera). Por que li até o final? Porque sou teimosa.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.

- São muitos, mas indico alguns: Os já citados - Grande Sertão, Sagarana, O Romance d’A Pedra do Reino e Nenhum Olhar. Memorial do Convento, A Jangada de Pedra, Ensaio Sobre a Cegueira (Saramago); O Livro do Desassossego (Fernando Pessoa); Um Sopro de Vida e Água Viva (Clarice Lispector); Alguma Poesia, A Rosa do Povo - todos de Drummond. (...)

9. Que livro estás a ler neste momento?

- Revisitando Cem Anos de Solidão (Gabriel García Márquez) e O Livro do Desassossego sempre na cabeceira.

10. Indica dez amigos para o Meme Literário:

- Indico a quem quiser fazer a brincadeira e compartilhar conosco do seu gosto literário! Se alguém fizer me avise para eu ver!!! =]

Foto: Margot Félix

sábado, 21 de janeiro de 2012

A menina e a fruta


                    Um dia, apanhando goiabas com a menina,
                    ela abaixou o galho e disse pro ar
                    - inconsciente de que me ensinava - 
                    'goiaba é uma fruta abençoada'.
                    Seu movimento e rosto iluminados
                    agitaram no ar poeira e Espírito:
                    o Reino é dentro de nós.
                    Deus nos habita.
                    Não há como escapar à fome da alegria!


                    Adélia Prado
                          In: Terra de Santa Cruz - 1981

                                      Imagem: Web

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O macro-mundo de AimishBoy


Este é o mundo encantado que o israelense, Nadav Bagim, criou. A série intitulada de Wonderland retrata pequenos insetos que o fotógrafo - também conhecido como Aimishboy - encontra em seu jardim.



O conjunto de fotografias revela um macro-mundo com aura de contos fantásticos, onde os insetos são os protagonistas.


Segundo Aimishboy, nenhum dos insetos ficou ferido durante as sessões e que para atraí-los ele espalha um pouco de açúcar pelo cenário montado na mesa da cozinha. É uma doce e mágica sessão fotográfica. ^^


Enquanto houver pessoas que se ocupem dos pequenos seres, o mundo será grande e eventualmente teremos sobressaltos de encantamento.

Veja mais fotos em seu site oficial >>> aqui <<< 

domingo, 15 de janeiro de 2012

No jardim de Epícteto




O aprazível de ver estes frutos, e a frescura que sai d'estas árvores frondosas, são — disse o Mestre, — outras tantas solicitações da natureza para que nos entreguemos às melhores delícias de um pensamento sereno. Não há melhor hora para a meditação da vida, ainda que seja inútil, do que esta em que, sem que o sol esteja no ocaso, já a tarde perde o calor do dia e parece que sobe vento do arrefecimento dos campos. 

São muitas as questões em que nos ocupamos, e grande é o tempo que perdemos em descobrir que nada podemos nelas. Pô-las de parte, como quem passa sem querer ver, fora muito para homem e pouco para deus; entregarmo-nos a elas, como a um senhor, fora vender o que não temos. 

Sossegai comigo à sombra das árvores verdes, em que não pesa mais pensamento que o secarem-lhes as folhas quando vem o outono, ou esticarem múltiplos dedos hirtos para o céu frio do inverno passageiro. Sossegai comigo e meditai quanto o esforço é inútil, a vontade estranha; e a própria meditação, que fazemos, nem mais útil que o esforço, nem mais nossa que a vontade. Meditai também que uma vida que não quer nada não pode pesar no decurso das coisas, mas uma vida que quer tudo também não pode pesar no decurso das coisas, porque não pode obter tudo. E o obter menos que tudo não é digno das almas que solicitam a verdade. 

Mais vale, filhos, a sombra de uma árvore do que o conhecimento da verdade, porque a sombra da árvore é verdadeira enquanto dura, e o conhecimento da verdade é falso no próprio conhecimento. Mais vale, para um justo entendimento, o verdor das folhas que um grande pensamento, pois o verdor das folhas, podeis mostrá-lo aos outros, e nunca podereis mostrar aos outros um grande pensamento. Nascemos sem saber falar e morremos sem ter sabido dizer. Passa-se nossa vida entre o silêncio de quem está calado e o silêncio de quem não foi entendido, e em torno d'isto, como uma abelha em torno de onde não há flores, paira incógnito um inútil destino. 

Fernando Pessoa
In: Pessoa Inédito - 1993

Pintura: The Old Orchand - Tom Dubbeldam


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Quem não desiste dos sonhos tem medo de ousar

Não tem jeito, sempre há alguém bem intencionado para repetir a frase salvadora: "Nunca desista dos seus sonhos". Então eu me pergunto, por que não posso arquivar alguns dos meus sonhos? Quero ter a liberdade de me apartar de sonhos que atravanquem meu caminho. E do que vale passar a vida inteira acertando murro em ponta de faca? 

Mas vamos por partes, não me refiro a deixar de ser persistente, de ter fé, esperança, ou mesmo utopias, pois alcançar um objetivo é uma delícia e precioso para nossa auto-estima. No entanto, não me interessa atingi-lo se eu não puder olhar para os lados. 

Cá para nós, quem não desiste dos seus sonhos é alguém que tem medo de olhar ao redor e perceber que há infinitas possibilidades. Tem medo de ousar sair do casulo confortável do "quando isso acontecer", "quando eu realizar meu sonho". E com o pensamento no que está por vir esquece do agora e das pequenas coisas, pequenos gestos, que podem ser tão grandes quanto um sonho mirabolante.

Oras, meus sonhos de 10 anos atrás hoje já não fazem nenhum sentido, e garanto... se alguns deles tivessem se concretizado eu não estaria tão bem como estou agora. Sim, desisto dos meus sonhos, faço remanejamento, alguns deles guardo em caixinhas e esqueço num lugar quieto. E tem outros que sepulto por completo, sem dramas ou frustrações, pois eu sei (e como sei) devanear e recriar fantasias. 


Imagem: Web

sábado, 7 de janeiro de 2012

Verbo


Ponho palavras em cima da mesa; e deixo
que se sirvam delas, que as partam em fatias, sílaba a
sílaba, para as levarem à boca – onde as palavras se
voltam a colar, para caírem sobre a mesa.

Assim, conversamos uns com os outros. Trocamos
palavras; e roubamos outras palavras, quando não
as temos; e damos palavras, quando sabemos que estão
a mais. Em todas as conversas sobram as palavras.

Mas há as palavras que ficam sobre a mesa, quando
nos vamos embora. Ficam frias, com a noite; se uma janela
se abre, o vento sopra-as para o chão. No dia seguinte,
a mulher a dias há-de varrê-las para o lixo.

Por isso, quando me vou embora, verifico se ficaram
palavras sobre a mesa; e meto-as no bolso, sem ninguém
dar por isso. Depois, guardo-as na gaveta do poema. Algum
dia, estas palavras hão-de servir para alguma coisa.


Nuno Júdice
In: As Coisas mais Simples - 2007



Gentilmente compartilhado por Cirandeira


Imagem: Web

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Quem é o Ano Novo?

Repostando... porque convém!



“Acorda, Margareth, vem ver o Ano Novo chegar!”

Nessa época eu era muito menina, tão menina que ainda acreditava em Papai Noel. Não lembro quantos anos eu tinha, mas recordo muito bem quando, próximo da virada do ano, a minha mãe me acordava para ver o Ano Novo chegar.

Talvez por ainda estar muito envolvida com as festas de Natal, com o bom velhinho e seus presentes, eu imaginava que o Ano Novo fosse, também, um homem (sem barba, porque ainda era novo) que traria presentinhos... ou que pelo menos tivesse a forma de gente.

No momento da virada do ano eu ficava meio sem entender, até imagino minha cara de paisagem (e de sono). Todos se abraçando, som alto, fogos de artifício barulhentos. E o Ano Novo, cadê? Somente ele não estava ali.

Mas no dia seguinte eu não deixava por menos e muito sabichona indagava à minha mãe: “Quem é o Ano Novo?” Ela não sabia que aquela dúvida era mesmo real; não era devaneio de criança. Ela não respondia... e por alguns anos eu fiquei muito na dúvida sobre quem seria o tal Ano Novo. 

Imagem: Web

domingo, 1 de janeiro de 2012

Nascer

Nascer
outra e outra vez
indefinidamente
como a planta sempre nascendo
da primeira semente;
pensar o dia bom
até criar a claridade
e nela descobrir
a primeira sílaba
da primeira canção.



Carlos Drummond de Andrade
In: Poesia Errante - 1988

Om!