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sábado, 21 de julho de 2012

Lusofonia



rapariga: s.f., fem. de rapaz; mulher nova; moça; menina; (Brasil), meretriz.

Escrevo um poema sobre a rapariga que está sentada
no café, em frente da chávena do café, enquanto
alisa os cabelos com a mão. Mas não posso escrever este
poema sobre essa rapariga porque, no brasil, a palavra
rapariga não quer dizer o que ela diz em portugal. Então,
terei de escrever a mulher nova do café, a jovem do café,
a menina do café, para que a reputação da pobre rapariga
que alisa os cabelos com a mão, num café de lisboa, não
fique estragada para sempre quando este poema atravessar
o atlântico para desembarcar no rio de Janeiro. E isto tudo
sem pensar em áfrica, porque aí lá terei
de escrever sobre a moça do café, para
evitar o tom demasiado continental da rapariga, que é
uma palavra que já me está a pôr com dores
de cabeça até porque, no fundo, a única coisa que eu queria
era escrever um poema sobre a rapariga
do café. A solução, então, e mudar de café, e limitar-me a
escrever um poema sobre aquele café onde nenhuma rapariga se
pode sentar à mesa porque só servem cafés ao balcão.


Nuno Júdice -
In: A matéria do poema

Imagem: web

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Sem-Lua


O homem pisou na Lua, mas não se deu por satisfeito... confinou-a por trás das altas torres dos edifícios.
Distraio-me e penso que toda luz a brilhar nos céus das grandes cidades é a Lua.
Susto: são as luzes das cem-mil casas empoleiradas.

Foto: Recife numa noite de Lua, sem-lua.

domingo, 15 de julho de 2012

Alegre

Repostando... porque convém!


O Dito dizia que o certo era a gente estar sempre brabo de alegre, alegre por dentro, mesmo com tudo de ruim que acontecesse, alegre nas profundas. Podia?

Alegre era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando demais com coisa nenhuma."


João Guimarães Rosa
In: Campo Geral - Manuelzão e Miguilim 



Imagem: Web

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Viajo porque Preciso, Volto porque Te Amo.


Viajo porque preciso, Volto porque te amo (2010) - realizado por Karim Ainouz (O Céu de Suely) e Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus) - , tem título piegas e foi por isso que chamou minha atenção. Vi o filme sem saber do que se tratava, esperei o óbvio, mas tive uma boa surpresa.

O geólogo de 35 anos, José Renato, sai de Fortaleza e se embrenha pelos sertões do Ceará, Pernambuco e Paraíba, para realizar uma pesquisa de campo e avaliar o terreno para a abertura de um canal para as águas da transposição do rio São Francisco. A viagem, que a princípio seria a trabalho, torna-se uma espécie de degredo, pois José Renato está sofrendo de mal de amor, e encontra no isolamento daquelas terras uma chance de se distanciar de si mesmo, tenta esquecer a "galega", e se envolve com os moradores de vidas secas daquela região árida. A partir daí o filme ganha ares de documentário, e o personagem que até então fala apenas de si mesmo, ouve o que os outros têm a dizer. Sai do cronograma da pesquisa e transita por ambientes ora pitorescos, ora poéticos. Lida com pessoas que, apesar de fazerem parte de uma realidade peculiar, vivenciam inquietações universais: medo, vazio, solidão, desilusões e também todo o contrário disso. 

De tudo, o que mais me impressionou nesse filme foi a fotografia experimental; o elemento humano que, apesar da aridez da paisagem, é muito presente, e me surpreendi com a envolvente narração do protagonista, que nunca aparece, feita pelo querido ator Irandhir Santos, que interpretou o Quaderna na belíssima série "A Pedra do Reino".



Veja o trailer:

sábado, 7 de julho de 2012

Confissão


Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!



Mario Quintana
In: Velório sem defunto - 1990