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quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Receita para lavar palavra suja

Repostando porque convém!



Se, segundo o poeta gauche, "lutar com palavras é a luta mais vã", façamos a receita (à moda cabralina), da Viviane Mosé, para lavar palavra suja.

***

Mergulhar a palavra suja em água sanitária, e depois de dois dias de molho quarar ao sol do meio dia.

Algumas palavras, quando são alvejadas ao sol, adquirem consistência de certeza, como, por exemplo, a palavra vida. Existem outras, e a palavra amor é uma delas, que são muito encardidas e desgastadas pelo uso, o que recomenda esfregar e bater insistentemente na pedra e depois enxaguar em água corrente. São poucas as palavras que resistem a esses cuidados, mas sempre existem aquelas.

Dizem que limão e sal tiram sujeiras difíceis, mas toda tentativa de lavar a piedade foi sempre em vão. Eu nunca vi palavra tão suja quanto perda; perda e morte, na medida em que são alvejadas, soltam um líquido corrosivo que atende pelo nome de amargura, que é capaz de esvaziar o vigor da língua. O conselho nesse caso é mantê-las de molho num amaciante de boa qualidade.

Mas se o que você quer é só aliviar as palavras do uso diário, pode usar sabão em pó e máquina de lavar. O perigo é misturar palavras que mancham no contato umas com as outras. Culpa, por exemplo, mancha tudo que encontra, e deve sempre ser alvejada sozinha. Outra mistura pouco aconselhada é amizade e desejo. Desejo é uma palavra intensa e pode, o que não é evitável, esgarçar a força delicada da palavra amizade.

É importante não lavar demais as palavras sob o risco de perderem o sentido. Aquela sujeirinha cotidiana, quando não é excessiva, produz uma oleosidade que dá vigor aos sons.

Muito importante na arte de lavar palavras é saber reconhecer uma palavra limpa. Conviva com as palavras durante alguns dias, deixe que se misturem em seus gestos e que  passeiem pela expressão de seus sentidos. À noite, permita que se deitem não ao seu lado, mas sobre o seu corpo. Enquanto você dorme a palavra plantada em sua carne prolifera em toda a sua possibilidade.

Se você puder suportar essa convivência até não mais perceber a presença dela, aí você tem uma palavra limpa.

Uma palavra limpa é uma palavra possível.





Imagem: Web

domingo, 19 de agosto de 2012

Quando a Fotografia dialoga com a Poesia



"Perto da nossa casa havia uma igreja com duas torres sineiras que mais pareciam gigantes coroados. Na cúpula de uma delas, aquela que ficava a nascente, havia um ninho com duas cegonhas brancas, protegido por uma das suas cantarias. Quando o sol estava a pique, estalavam os bicos como se fossem aplausos num deserto. Aprendi mais tarde que a esse bater de bico se chamava gloterar, ou glotorar. Era o único som que se ouvia no silêncio dos domingos de verão, depois de almoço, antes da avó nos chamar para dormir. Hoje, só resta a Igreja, ainda imponente e coroada, mas sem aquele alvéolo de beleza e ternura que era o ninho das cegonhas brancas perto da nossa casa. 
Este par, encontrava-se de vigia na entrada de uma aldeia vizinha. Já não era a torre gigante, nem um frenesim de aplausos no meio de nada, mas o crepúsculo estava ali para nos evocar que mesmo depois de dormir, mesmo depois do deserto, o silêncio não será mais o mesmo."

Cavalos no Gelo-
Miguel Pessoa Vidal

Mais fotografias, textos e vídeos, no link: Cavalos no Gelo

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A falta que uma gatinha faz


Faz mais de 15 dias que minha gata, Ritinha, foi embora para o Céu dos gatinhos. Na primeira semana eu chorei copiosamente, agora chorar já não faz sentido, no entanto ainda sinto muita falta da minha florzinha.

Em seu "Seco estudo sobre cavalos", Clarice Lispector diz que 'o cavalo é nu', concordo com a assertiva, mas acrescento que todos os animais são nus e desprovidos de máscaras. Os animais são como são e é por isso que nos conquistam e a eles nos entregamos sem reservas. E os gatos? Além de serem nus, são livres, despojados, e é essa liberdade que os tornam tão queridos. 

Minha Ritinha deixou saudades. Aquela guria feia não levou a sério o dito que gato tem sete vidas. Inúmeros gatinhos foram meus donos (sim, eles são nossos donos), mas a Ritinha teve um lugarzinho especial no meu coração.

*
Curiosamente, Matilde, a outra gata, que era insuportavelmente arisca (quase uma jaguatirica) agora está mansinha e afetuosa. É, os cats são ciumentos.
E para não dizer que não falei em Kiko, ele continua zen e caminhando para seus 20 aninhos. Kiko tem muito mais de 7 vidas.

PS: Ritinha morreu de infarto, eu não sabia que gatos podem sofrer do coração. =/

domingo, 5 de agosto de 2012

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Os passarinhos são assim...


"Os passarinhos são assim de propósito: bonitos não sendo da gente."


João Guimarães Rosa
In: Manuelzão e Miguilim


Foto: Margot Félix, em Imagens são Palavras que nos Faltam