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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Retrato (para Drummond)


Parabéns, Carlos!


O sorriso escasso,
O riso-sorriso,
A risada nunca.
(Como quem consigo
Traz o sentimento 
Do madrasto mundo.)

Com os braços colados 
Ao longo do corpo,
Vai pela cidade
Grande e cafajeste,
Com o mesmo ar esquivo
Que escolheu nascendo
Na esquiva Itabira.

Aprendeu com ela
Os olhos metálicos
Com que vê as coisas:
Sem ódio, sem ênfase,
Às vezes com náuseas.

Ferro de Itabira,
Em cujos recessos
Um vedor, um dia,
Um vedor - o neto - 
Descobriu infante
As fundas nascentes,
O veio, o remanso
Da escusa ternura.

Manuel Bandeira
in, Opus 10 (1952)

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Duas versões - Chico César e Né Ladeiras


Neste disco, que considero um dos trabalhos mais expressivos de Chico César - Cuscuz Clã (1996) -, há uma música forte com letra poética - As Asas. Partilho duas versões da mesma poesia, primeiro a versão de Chico, com arranjos rebuscados, e a seguir numa versão mais zen na doce voz da Né Ladeiras. 

As Asas - Chico César

 

"Voar sem asas 
lavar-se com as brasas 
que o amor acendeu."

sábado, 20 de outubro de 2012

Zoologia: outro gato


Um gato, numa casa velha, toma
posse de tudo. São dele os sofás esburacados,
as camas por fazer, os armários de portas
abertas. Sobe para cima das cadeiras e,
como um deus, olha os seus domínios
sem compaixão nem medo.

Porém, se o surpreendemos
na sua pose, inquieta-se. Arqueia o dorso,
olha-nos com ar de desafio, e só
se alguém se aproxima é que
salta, dando início à fuga por entre salas
e corredores.

Por fim, talvez o encontremos a espreitar
de um telhado; ou a sua presença furtiva se
sinta à noite, quando nos apercebemos
do bater de uma janela mal fechada,
ou damos por que o vento empurrou a porta
do quintal.

Nuno Júdice
in, A Fonte da Vida - 1997

Imagem: Web

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Os desenhos animados da minha infância


Deixando 'las preguntas' um pouco de lado, e a propósito do dia das crianças, que será comemorado amanhã, mergulho no mundo das animações que me acompanharam durante grande parte da minha infância e até hoje ainda ocupa algum espaço. Baseada no divertido post da Carla Ceres, sobre desenhos e quadrinhos, fiz uma seleção dos desenhos animados que faziam minha cabeça e, repito, ainda fazem.



Da minha mais remota lembrança, os Smurfs foram os primeiros. Eu não passava um dia sem ver esses duendes azuis. Eu tinha uma mórbida atração por Gargamel e seu gato Cruel. Eles eram maus, mas tinham qualquer ingenuidade que me atraia. Dos Smurfs, o que eu mais gostava era o Habilidoso, aquele que usava um lápis por trás da orelha e sabia consertar tudo. Há pouco tempo fiquei sabendo que ainda passa na TV. : )




A Luluzinha era aquela florzinha, mas não era nada tola. Conhecia seu lugar no mundo e sabia se impor. Talvez a primeira personagem feminista a quem tive acesso, mas lembro que era um feminismo ponderado. Eu adorava. Salvo engano, ainda passa na TV.


A lânguida Pantera-Cor-de-Rosa, que faz parte do imaginário de várias gerações é esse felino autêntico que não se deixa explorar, tem um jeitinho malandro e faceiro. Até hoje eu não sei se a pantera é macho ou fêmea. Mas não importa!



A turma do Manda-Chuva também é das antigas, das séries da Hanna-Barbera era a que eu mais gostava. Não por acaso o desenho era majoritariamente com gatos. E o melhor, gatos de rua, entendidos na arte da vadiagem. Ah, meus olhos ficavam vidrados. ^^



Concluo a lista com o gauche Charlie Brown. Eu ainda não tinha muito entendimento para acompanhar as histórias excêntricas de Charlie Brown, mas havia ali algo que eu gostava. Hoje eu sei, era a introspecção dos personagens, o apelo pela reflexão, as dúvidas e perguntas sem resposta. Era uma turminha existencialista.

A lista poderia ser maior, mas estes são os desenhos mais emblemáticos da minha infância. Para mim, todos eles ainda são interessantes, e sempre que possível revejo alguns episódios.

Desejo um lindo dia das Crianças para as crianças de todas as idades!


domingo, 7 de outubro de 2012

Das Perguntas


Em que janela me quedei
olhando o tempo sepultado?

Ou o que olho de longe
é o que não vivi ainda?

Pablo Neruda
in, Livro das Perguntas

Imagem: Web