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sábado, 31 de agosto de 2013

Quixote e Sancho, de Portinari


Que é loucura: ser cavaleiro andante
ou segui-lo como escudeiro?
De nós dois, quem o louco verdadeiro?
O que, acordado, sonha doidamente?
          O que, mesmo vendado,
          vê o real e segue o sonho
de um doido pelas bruxas embruxado?
Eis-me, talvez, o único maluco,
e me sabendo tal, sem grão de siso,
sou — que doideira — um louco de juízo.

Carlos Drummond de Andrade
'As impurezas do branco'


Gravura: 'Dom Quixote e Sancho Pança saindo para suas aventuras' - 1956
Cândido Portinari

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

PianOrquestra


A princípio senti aflição ao ver um piano ser devassado daquela maneira, mas decidi me entregar e ouvir. Estou falando da performance do grupo musical PianOrquestra - grupo com quatro pianistas e uma percussionista que se utiliza de 1 piano de cauda, e alguns acessórios, para apresentar peças musicais.

A surpresa é ver as entranhas do piano transformar-se numa espécie de banquete, onde os músicos comensais servem-se das cordas, das teclas, da madeira e com delicadeza e precisão cirúrgica extraem dali um som agradável, criativo, mas sempre familiar. O expectador/ouvinte também é deliciosamente servido! 

O projeto PianOrquestra não é novo, mas somente agora eu tive oportunidade de ver (em DVD) um de seus concertos. Espero um dia vê-los ao vivo, e ver/ouvir de perto esse piano que não é somente um piano!

domingo, 14 de julho de 2013

Fotografia


"(...) A fotografia deve ser silenciosa (há fotos tonitruantes, não gosto delas): não se trata de uma questão de "discrição", mas de música."
 
Roland Barthes -
'A Câmara Clara'

Fotografia: António Paixão

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Urbana Legio Forever


Dediquei o último domingo a ouvir meus álbuns da 'Legião Urbana' - a banda de rock que mais marcou meus tempos de descobertas juvenis. Então lembrei que, alguns anos atrás, alguém me disse em tom de desdém que a Legião Urbana tem uma música datada, e que anos mais tarde eu não veria sentido naquilo. Hum, acho que esta pessoa estava equivocada.

Hoje não escuto a banda com a mesma frequência, tampouco com a mesma vibração de antes, hoje tenho novas referências - o que não anula as antigas -,  mas leio as letras e ouço os arranjos e posso afirmar que a música da banda candanga continua mais atual do que nunca. As canções falam de violência, medo, desejo de mudança, sexo, drogas, mas sobretudo, de amor e esperança, de utopias. Nada mais do que sentimentos e conflitos universais e atemporais. 

A fúria juvenil de Renato Russo ainda faz sentido, sim. Ainda me sinto motivada a 'amar as pessoas como se não houvesse amanhã', embora nem sempre consiga. Ainda danço embalada pela bateria de Bonfá e ainda percebo nesse som frenético a tentativa de exorcizar os medos e as dúvidas e, ali naquele êxtase, encontrar o amor que transborda disfarçado de raiva.


"Deve haver algum lugar
Onde o mais forte
Não consegue escravizar
Quem não tem chance.

De onde vem a indiferença
Temperada a ferro e fogo?
Quem guarda os portões da fábrica?"

 Fábrica - Renato Russo 




sábado, 11 de maio de 2013

O sempre amor

Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é coisa que mais quero.
Por causa dele falo palavras como lanças.
Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é a coisa que mais quero.
Por causa dele podem entalhar-me,
sou de pedra sabão.
Alegre ou triste,
amor é coisa que mais quero.

Adélia Prado
'Bagagem'


 Pic: Web

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Maya - Uma surpresa feliz!


Às vezes as coisas sem explicação são bem-vindas, assim foi a chegada dessa florzinha. Há uma semana, 1º dia de maio, chegou sem aviso essa mocinha com fita rosa no pescoço e olhar assustado. Ela veio embalada para presente, e eu aceitei com todo prazer. Não sabemos de onde veio, mas aqui ela encontrou um lar e já faz parte da família. O nome dela é Maya, simples assim... sem grandes significados.



E não adianta os médicos dizerem que faz mal dormir com gatos, ela dorme comigo desde o dia que chegou. Já tomou o primeiro banho, retirei a fita, em breve levarei ao vet para tomar vacinas, e agora ela está sendo o que nasceu para ser, uma gatinha de almofada muito mimada, dengosa e fofinha. Não tem jeito, os gatos me deixam rendida!

Maya é muito parecida com Ritinha (aqui), a  florzinha que foi para o Céu dos gatinhos ano passado, talvez por isso aqui em casa todos ficaram apaixonados logo de cara. Chegou em boa hora!

Kiko e Matilde não fizeram caso, ao menos por enquanto, e a paz reina no lar do felinos!
"O homem mora na casa do gato,
que o tolera por política."

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 28 de abril de 2013

Os livros

"os livros que em nossa vida entraram são como a radiação de um corpo negro apontando pra a expansão do Universo porque a frase, o conceito, o enredo, o verso (e, sem dúvida, sobretudo o verso) é o que pode lançar mundos no mundo."

Caetano Veloso
'Livro'






















Imagem: Evelien Deconinck

terça-feira, 16 de abril de 2013

Aniversário do Blog - 3 anos

Hoje o 'Compartimento Secreto' completa 3 anos!

Colecionar 'Coisas Pequenas' sempre foi minha intenção quando criei esse blog, e continuo com este propósito. Mas, entretanto, me apaixonei por algo que trouxe um novo significado para meu mundo pessoal, para os compartimentos secretos de mim mesma - a fotografia. Por isso, se não estou tão assídua com as postagens é, a meu ver, por uma causa justa. A tentativa, agora, é colecionar as pequenas coisas fotografadas por mim!

Quero agradecer a todos que sempre visitam o 'Compartimento Secreto para Coisas Pequenas'. Alguns abrem as gavetinhas deste blog desde o comecinho, outros acabaram de chegar. A todos deixo meu mais carinhoso abraço!!!

Para visitar minha página, clique na foto.
E para conhecer o blog, clique no link abaixo:

http://palavrasquenosfaltam.blogspot.com.br



Luz e Paz, sempre!

sábado, 13 de abril de 2013

Eu queria fazer parte das árvores...


Eu queria fazer parte das árvores como os
pássaros fazem.
Eu queria fazer parte do orvalho como as
pedras fazem.
Eu só não queria significar
Porque significar limita a imaginação.
E com pouca imaginação eu não poderia
fazer parte de uma árvore
Como os pássaros fazem.
Então a razão me falou: o homem não
pode fazer parte do orvalho como as pedras 
fazem.
Porque o homem não se transfigura senão
pelas palavras.
E isso era mesmo.

Manoel de Barros - 
'Menino do Mato' (2010)

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Uma obra, uma árvore e um desfecho ruim

Pareço legal, mas sou dessas que anda pelo mundo observando as mudanças que ocorrem na paisagem (e não só) da minha cidade e adjacências. 

Recentemente notei que havia obras a uma residência num dos setores mais centrais da cidade. A casa estava sendo demolida mas a grande árvore continuava em pé.

Assim, sempre que eu por ali passava dava uma olhada nos tapumes da obra e na copa da árvore que abraçava boa parte do terreno. 

Passei 1 mês fora e quando regressei tive uma infeliz surpresa. As obras estavam concluídas, ali estava erquida uma moderna clínica médica particular. E a árvore? Certamente feita em pedaços, pois no lugar dela agora vejo um estacionamento exclusivo para clientes. Uma árvore frondosa, cheia de vida, deu lugar a uma calçada de cimento.
Fiquei perplexa. Então do que serve um edifício moderno (de gosto duvidoso) se a árvore que queria tão somente ser árvore não está mais de pé?

Quão estúpido pode ser o ser humano?




domingo, 31 de março de 2013

Escrever

"(...) Uma coisa eu já adivinhava: era preciso tentar escrever sempre, não esperar por um momento melhor porque este simplesmente não vinha. Escrever sempre me foi difícil, embora tivesse partido do que se chama vocação. Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir."

Clarice Lispector -
'Aprendendo a Viver'

segunda-feira, 25 de março de 2013

O primeiro livro que amei


Tantos livros já passaram por minhas mãos. Alguns li com alvoroço, outros sem muito interesse. Alguns reli, releio, outros para nunca mais. Não recordo tudo o que li, mas ainda tenho guardado o primeiro livro que amei. Trata-se de um livro pequenino que faz parte de uma coleção infanto-juvenil, e remonta às minhas leituras inaugurais. Leituras de puro deleite!


‘A Viagem de Retalhos’, da escritora baiana Sonia Robatto, é uma singela história de uma garotinha que faz um passeio com a avó até a casa das irmãs Cardoso – Cotinha e Emerenciana – duas senhorinhas que teciam uma belíssima colcha de retalhos. A menina ouve a conversa das 3 mulheres enquanto brinca com uns filhotes de gatinhos. Num momento que sua avó se ausenta da sala a menina aproxima-se das simpáticas velhinhas que estão a relembrar a história de cada retalho de pano. Havia lembranças tristes e lembranças divertidas. 


As irmãs percebem que a garota está atenta e convidam-na para uma pequena viagem. Estendem a colcha no chão da sala, sentam-se em cima de duas malas e a partir dali um mundo fantástico surge diante dos olhos da menina. A colcha transforma-se num lindo barco e as três navegam por mares incríveis. Encontram pescadores, tubarões, vendavais e de repente o mar transforma-se em céu, ambos confundem-se, e os peixinhos parecem voar. Passam perto da Lua, conversam com São Jorge... A viagem só é interrompida no momento em que a avó volta à sala e todo o cenário se desvanece como num passe de mágica. As irmãs Cardoso têm um sorriso maroto, mas a avó nada percebe. 

  
Antes de regressar à casa Emerenciana oferece a menina um retalho de pano cheio de bolinhas coloridas e diz em seu ouvido: ‘-Leve para a sua colcha, como lembrança da nossa viagem...’ Ela levou!


E esta é a história do 1º livro que amei – simples, fantasiosa e poética. Meus olhinhos brilhavam com as ilustrações!

Você lembra qual o 1º livro que amou?

sábado, 16 de março de 2013

Quando o Homem era criança...


Quando o Homem era criança, 
 por entre árvores caminhava 
tinha um manto e a aliança 
de um tempo que o confortava 
Quando um Homem era menino
e entre árvores se encontrava
sorria mais pelo destino
de felicidade que ignorava.

Texto e fotografia: Cavalos no Gelo -
Fragmentos Dispersos - 2013

terça-feira, 12 de março de 2013

Anna Karenina


Eu poderia dizer que em termos de cinema sou uma curiosa. Vejo todo gênero de filme e nem sempre importa se é blockbuster, clássico ou de arte. Sou curiosa (mas tenho minhas preferências). Quase sempre consigo encontrar pontos positivos e o tempo não é perdido.

Continuando com minhas opiniões pessoais, não vejo muita graça na atriz Keira Knightley, mas mergulhei na nova versão de 'Anna Karenina', do realizador Joe Wright. Atores e atuações à parte, fiquei encantada com o visual desse filme. E não importa que o cinema já tenha ao menos meia-dúzia de versões dessa mesma trama. Boas realizações são sempre bem-vindas.

A trágica história, escrita pelo russo Tolstói, todos já conhecem. Nem é segredo que a incauta Anna morre no final.


O que salta aos olhos é a direção de arte. Os cenários são lúdicos e com a evolução da trama eles se sobrepõem compondo belíssimos quadros. Os personagens transitam nesse ambiente teatral e por vezes temos a impressão que são marionetes bailando/atuando.


A fotografia bem cuidada realça ainda mais esse universo teatral. A trilha sonora é preciosa e o figurino é riquíssimo. O filme agrada aos olhos! A atmosfera da fotografia e cenários revelam semelhanças com a minisérie Capitu, que comentei aqui alguns posts atrás. Fiquei surpresa! Agrada-me essa estética lúdica e romântica, por isso vi a película sem piscar os olhos.


 

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Todas as Manhãs do Mundo

'Todas as Manhãs do Mundo' - 1991
Alain Corneau






"A música está para dizer aquilo que a palavra não pode."


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Capitu - A Vida é uma Ópera


Uma vez a cada 10 anos a Rede Globo apresenta ao público algo decente e com refinamento artístico. São raras as produções que contemplam a inteligência dos telespectadores e enveredam para o invulgar. Capitu (2008) foi essa pérola que recebemos de presente! Pinceladas de poesia, um repouso na beleza!





Machado de Assis - o criador do célebre Dom Casmurro e sua amada Capitu, dispensa apresentações. Apenas destaco a boniteza do trabalho do realizador, Luiz Fernando Carvalho, que dá vida às imagens mais belas de grandes obras literárias que às vezes ficam adormecidas em estantes empoeiradas e por displicência esquecemos de ler.  


Ainda bem que existem as almas bondosas que partilham essa preciosidade no YouTube.
A quem interessar, deixo os links para ver a minissérie na íntegra em 5 capitulos:

Capítulo 1 > http://www.youtube.com/watch?v=X0ZjXHDBatw

Capítulo 2 > http://www.youtube.com/watch?v=ZjyqwwwhBD0

Capítulo 3 > http://www.youtube.com/watch?v=LqLkIzdEAGw

Capítulo 4 > http://www.youtube.com/watch?v=x3HpggLXz9A

Capítulo 5 > http://www.youtube.com/watch?v=iFRjx242Fbo

 
“Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar; tinha orgias de latim e era virgem de mulheres.”

"A alma da gente, como sabes, é uma casa assim disposta, não raro com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro."

"Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem."

"Capitu era também mais curiosa. As curiosidades de Capitu dão para um Capítulo. Eram de várias espécies, explicáveis e inexplicáveis, assim úteis como inúteis, umas graves, outras frívolas, gostava de saber tudo." 

Dom Casmurro - Machado de Assis


Capitu - 2008
Projeto Quadrante